Dia do Estudante (11 de agosto): a origem da data e o que fazer com as crianças
A data nasceu de uma lei que mandou criar dois cursos de Direito em 1827 — algo bem distante de uma criança de cinco anos. Entender o que se comemora ajuda a decidir o que vale fazer no dia.
Todo ano, na primeira semana de agosto, a mesma pergunta chega às escolas e aos grupos de família: o que fazer no Dia do Estudante? A resposta padrão costuma ser uma lembrancinha, um mural com fotos e uma frase motivacional. Não há nada de errado nisso, mas vale saber que a data tem uma origem bastante específica, e que ela não fala de crianças pequenas em nenhum momento.
Este texto faz duas coisas. Primeiro, mostra o que está escrito no documento que deu origem ao 11 de agosto — e o que não está. Depois, propõe o que cabe fazer com crianças de 3 a 10 anos, que são justamente as que a data não tinha em vista.
Um aviso de método antes de seguir: nenhuma das pesquisas citadas aqui estudou datas comemorativas, e nenhuma delas testou se comemorar o Dia do Estudante muda alguma coisa para uma criança. O que essas pesquisas descrevem é outra coisa — como a motivação para aprender se comporta ao longo da escolaridade e como a criança constrói a ideia que faz de si mesma enquanto aluna. A ponte entre isso e o 11 de agosto é deste artigo, e está sinalizada onde acontece.
O que a lei de 11 de agosto de 1827 realmente diz
O documento está publicado na íntegra no portal de legislação da Câmara dos Deputados, e é curto o bastante para ser lido em poucos minutos. Ele começa assim: "Crear-se-hão dous Cursos de sciencias juridicas, e sociaes" — um na cidade de São Paulo, outro na de Olinda. A seguir vem a grade, distribuída em cinco anos e nove cadeiras. No primeiro ano, direito natural, direito público, análise da Constituição do Império, direito das gentes e diplomacia, mais instituições do direito romano. Nos anos seguintes, direito público eclesiástico, direito pátrio civil, direito pátrio criminal, direito mercantil e marítimo, economia política e a teoria e prática do processo.
A lei também define o quadro de professores: "nove Lentes proprietarios, e cinco substitutos". E termina com o registro que fixou a data no calendário: "Dada no Palacio do Rio de Janeiro aos 11 dias do mez de Agosto de 1827, 6º da Independencia e do Imperio", com a assinatura de Dom Pedro Primeiro e do Visconde de São Leopoldo.
Duas observações que costumam se perder quando a história é resumida. A primeira é que o texto usa o futuro — criar-se-ão —, ou seja, a lei manda criar os cursos, e o funcionamento deles veio depois. A segunda, mais importante para quem vai explicar isso a uma criança, é que a lei não institui nenhuma data comemorativa. Ela cria dois cursos de ensino superior. O Dia do Estudante é uma homenagem construída bem mais tarde a partir dessa data.
De dois cursos de Direito ao dia de toda criança
Uma página institucional da Câmara dos Deputados, publicada em agosto de 2022, faz exatamente essa ligação: registra que a data "faz alusão ao 11 de agosto de 1827, quando o Imperador D. Pedro I instituiu os dois primeiros cursos brasileiros de ensino superior nas áreas de Ciências Jurídicas e Ciências Sociais: na Faculdade de Direito de Olinda (PE) e na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (SP)". E amplia o sentido da homenagem, ao dizer que ela celebra "um direito fundamental dos cidadãos: a educação".
Vale uma nota de honestidade aqui, porque o assunto circula com muita confiança na internet. Aparece em vários sites a informação de que o Dia do Estudante teria sido proposto em 1927, por um advogado, durante as celebrações do centenário dos cursos jurídicos. Não foi possível confirmar isso em fonte primária, e por isso o dado não é afirmado neste artigo. O que está documentado e verificável é a lei de 1827 e o reconhecimento oficial da data como homenagem a ela.
Fica então a transposição que interessa: uma data que nasceu do ensino superior hoje é celebrada em creches e em turmas de alfabetização. Isso não é um problema — é o que acontece com quase toda data comemorativa. Mas explica por que as atividades prontas que circulam costumam soar vazias para os pequenos: elas herdaram um discurso feito para universitários.
O que se sabe sobre querer aprender
Se a data vai falar de estudar, vale olhar o que a pesquisa brasileira descreve sobre a vontade de aprender — com a ressalva de que nada disso trata do 11 de agosto.
Um estudo publicado em 2021 na Revista Psicopedagogia aplicou uma escala de motivação para a aprendizagem a 124 estudantes de 11 a 14 anos e encontrou a chamada meta aprender como a mais forte do grupo: a maioria respondeu que estuda para dominar o conteúdo, e não para exibir desempenho nem para evitar parecer incapaz. O achado que mais importa aqui é outro, e é desconfortável: houve associação inversa entre o ano escolar e a motivação, ou seja, quanto mais avançada a turma, menor a proporção de estudantes no grupo de alta motivação para aprender. Duas ressalvas dos próprios autores: a amostra é pequena e vem em grande parte de uma única escola privada de classe A, o que eles registram como limitação por falta de comparação com outros estratos sociais.
Uma pesquisa anterior, de 2013, na revista Avaliação Psicológica, avaliou 314 alunos do 3º ao 9º ano, de 7 a 17 anos, com duas escalas. Encontrou correlações positivas e moderadas entre o uso de estratégias de aprendizagem e a motivação intrínseca — o gosto pela própria tarefa. Já a motivação extrínseca, ligada a nota, prêmio e aprovação externa, apresentou correlações muito fracas, algumas próximas de zero. Os autores alertam que os dados vêm de autorrelato, sujeito a resposta socialmente desejável, e que a divisão entre intrínseca e extrínseca ignora as gradações dentro da segunda.
A leitura prática deste artigo, e não conclusão das fontes: se a motivação tende a cair ao longo dos anos e se o que anda junto com bons hábitos de estudo é o interesse pela tarefa em si, um dia dedicado ao estudante rende mais quando devolve à criança alguma experiência de gostar de aprender do que quando entrega mais uma premiação. Vale menos o troféu e mais a atividade que ela vai querer terminar.
O aluno que a criança acha que é
Há um segundo fio que ajuda a pensar a data, e ele diz respeito à imagem que a criança forma de si mesma na escola.
Um estudo de 2020 publicado na Psicologia em Pesquisa avaliou 74 alunos do 3º ao 5º ano, com média de 9,4 anos, numa rede pública do interior do Rio Grande do Sul, usando escalas de autoestima e de autoconceito junto de um teste de desempenho escolar. Dois resultados chamam atenção. O primeiro é que o perfil escolar do autoconceito foi o mais frágil de todos: quase metade da amostra pontuou baixo justamente na parte que diz respeito a se ver como capaz na escola. O segundo é a direção geral do achado — os alunos com autoestima elevada e autoconceito social alto foram os que apresentaram desempenho escolar médio e superior. Os autores contextualizam a amostra como pequena, de uma cidade pequena e restrita à rede pública, o que limita qualquer generalização.
Uma revisão publicada em 2009 na Psicologia: Ciência e Profissão, que analisou dez artigos brasileiros publicados entre 1996 e 2005, resume o consenso da literatura da época: o autoconceito apareceria como um dos principais fatores do rendimento acadêmico, com estudos verificando escores elevados de autoconceito acadêmico entre alunos de alto desempenho. Os próprios autores registram que analisaram apenas periódicos de uma faixa de classificação e que encontraram poucas publicações sobre o tema.
Nada disso permite dizer que elogiar uma criança melhora sua nota — são estudos correlacionais, e associação não é causa. Mas há um ponto que sobrevive à ressalva e serve para o dia 11: a frase que uma criança repete sobre si mesma como aluna importa, e ela é aprendida com adultos. Quem convive com a criança tem alguma influência sobre isso, e uma data que fala do estudante é uma boa desculpa para conferir que frase é essa. O jeito de fazer esse reconhecimento sem criar pressão é assunto de como elogiar de forma saudável, e a autoestima na infância tem um texto próprio em autoestima infantil: como fortalecer no dia a dia.
Com crianças de 3 a 6 anos
Nessa faixa, contar que houve uma lei em 1827 não produz nada além de silêncio educado. Duzentos anos é um conceito que ainda não existe. O que funciona é tratar o dia como o dia de quem aprende — e a criança de três anos aprende o tempo todo, ainda que não numa carteira.
Três ideias que cabem no tempo real de uma manhã:
- O quadro do "eu já sei". Pergunte o que ela sabe fazer hoje que não sabia quando era menor: subir sozinha, abrir a garrafa, escrever o próprio nome, pedalar. Anote na folha com a letra dela ao lado, mesmo que seja um rabisco. A lista é o presente.
- Desenhar a escola ou a professora. Simples, direto e revelador: o que a criança escolhe desenhar diz muito sobre o que ela considera importante ali. Vale guardar com a data no verso.
- A folha do dia. Uma atividade impressa escolhida por ela, não por você. A escolha é a parte que importa. Há material para isso em desenhos para colorir e em atividades para imprimir.
Evite dois caminhos comuns. O primeiro é transformar o dia em avaliação disfarçada, com perguntas sobre o que ela já deveria saber. O segundo é a lembrancinha com frase para adulto ler — bonita na foto, invisível para a criança.
Com crianças de 7 a 10 anos
Aqui a origem histórica já pode entrar, e ela até funciona bem, porque tem elementos concretos: um imperador, um documento assinado à mão, duas cidades, uma grafia antiga que faz rir. Mostrar a palavra "crear-se-hão" escrita daquele jeito costuma render mais conversa do que qualquer resumo.
A partir daí, duas perguntas abrem discussão de verdade numa criança dessa idade: quem podia estudar naquela época e quem pode hoje; e por que só existiam dois cursos no país inteiro. Não é preciso fechar a resposta — o valor está na pergunta.
Do lado prático, esta é a idade em que o dia pode virar um pequeno acerto de rotina, sem clima de cobrança. Vale rever junto onde a criança estuda, o que atrapalha e o que ela mudaria; o passo a passo está em rotina de estudos em casa. E vale registrar o que ela já conquistou no ano, em vez de listar o que falta — a lógica do mural de conquistas serve bem à data.
Na sala de aula, sem virar só festinha
Como 11 de agosto é dia letivo comum, o que costuma caber é algo curto e integrado à aula. Quatro formatos que funcionam sem exigir preparação longa:
- A linha do tempo da turma. De 1827 até hoje, com três ou quatro marcos que a turma escolhe. Serve para matemática, história e noção de tempo ao mesmo tempo.
- Carta para o estudante do ano que vem. Cada criança escreve ou dita uma dica para quem vai ocupar aquela carteira. Guarde e entregue na volta às aulas seguinte.
- O que eu ensinaria. Cada aluno prepara dois minutos sobre algo que sabe fazer bem, escolar ou não. Ensinar é a forma mais direta de se reconhecer como alguém que sabe.
- Mural do "antes eu não sabia". Uma frase por criança, exposta no corredor. É o mesmo princípio do quadro dos pequenos, em versão coletiva.
Vale evitar o formato que compara alunos entre si — melhor estudante, melhor caderno, melhor nota. Uma data que existe para valorizar quem estuda perde o sentido quando distribui a maioria dos participantes entre os que não ganharam nada. Quem prepara material para a turma encontra outros recursos no Espaço do Professor.
Para escolas que organizam o calendário de agosto por datas, o mês ainda traz a Semana da Pátria logo adiante, com sugestões em Semana da Pátria para os pequenos.
Como explicar a data em três frases
Se a criança perguntar por que existe esse dia, três frases resolvem, e podem ser ajustadas à idade:
- "Faz muito tempo, num dia 11 de agosto, o Brasil criou as duas primeiras faculdades do país."
- "Eram faculdades de leis, e só entrava muito pouca gente."
- "Hoje esse dia é de todo mundo que estuda — e isso inclui você."
A terceira frase é a única que a criança pequena vai guardar, e é a que interessa. As outras duas explicam de onde veio, para quem perguntar mais.
Perguntas frequentes
O Dia do Estudante é feriado?
Não. É uma data comemorativa, e as escolas funcionam normalmente em 11 de agosto. Isso muda o que se pode planejar: em vez de um evento à parte, o que costuma caber é algo dentro da aula ou da rotina de casa, com tempo curto e material simples.
Por que a data é 11 de agosto?
Porque em 11 de agosto de 1827 foi assinada a lei que mandou criar os dois primeiros cursos de ciências jurídicas e sociais do país, um em São Paulo e outro em Olinda. O texto original, publicado no portal da Câmara dos Deputados, começa com a frase Crear-se-hão dous Cursos de sciencias juridicas, e sociaes e traz a data no fecho: Dada no Palacio do Rio de Janeiro aos 11 dias do mez de Agosto de 1827. A lei cria cursos de ensino superior, não a data comemorativa.
Faz sentido comemorar com uma criança de 3 anos?
Faz, desde que a comemoração seja sobre ela e não sobre 1827. Para essa idade, a parte histórica não significa nada, e o que sobra de útil é o reconhecimento concreto: mostrar algo que ela aprendeu a fazer neste ano e que antes não fazia. A data histórica pode entrar mais tarde, quando a criança já tiver alguma noção de passado.
O que dar de presente no Dia do Estudante?
Nada obriga a dar presente, e a data não tem essa tradição. Se a ideia for marcar o dia, costuma render mais algo que a criança use do que algo que ela guarde: uma folha nova para desenhar, um caderno em branco, um jogo que se joga junto. Presente caro transforma um dia sobre aprender em um dia sobre ganhar, o que é justamente o contrário do que a data propõe.
Em resumo
O 11 de agosto vem de um documento de 1827 que mandou criar dois cursos de Direito e não menciona criança nenhuma. A homenagem veio depois, e hoje alcança quem está na creche. Isso dá liberdade para tratar a data pelo que ela tem de aproveitável: um dia para a criança perceber que aprendeu alguma coisa. Com os pequenos, isso cabe numa lista do que ela já sabe fazer. Com os maiores, cabe numa conversa sobre quem podia estudar naquela época e quem pode agora. Em nenhum dos casos precisa de lembrancinha comprada — precisa de alguém que pare cinco minutos e diga, com exemplo na mão, que ela está aprendendo.
Fontes e referências
- BRASIL. Lei de 11 de agosto de 1827 (publicação original). Cria dous Cursos de sciencias juridicas e sociaes, um na cidade de S. Paulo e outro na de Olinda. Portal da Legislação, Câmara dos Deputados. Disponível em www2.camara.leg.br. Consultado em 5 de agosto de 2026.
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Este artigo tem caráter educativo e informativo e não substitui a orientação da equipe pedagógica da escola nem a avaliação de profissionais como psicopedagogo, psicólogo escolar ou fonoaudiólogo. As pesquisas citadas são correlacionais ou descritivas e não tratam de datas comemorativas: nenhuma delas testou as sugestões deste texto, e associação entre autoestima, motivação e desempenho não significa relação de causa. Se houver preocupação com a aprendizagem ou com o desânimo persistente de uma criança em relação à escola, o caminho é conversar com a escola e procurar avaliação profissional — nada aqui serve para identificar, confirmar ou descartar qualquer dificuldade.
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