Sonho de uma noite de verão

Em Atenas, na Grécia antiga, viviam dois jovens muito apaixonados: Hérmia e Lisandro. Só havia um problema: o pai de Hérmia queria que ela se casasse com outro rapaz, chamado Demétrio, e ficou muito zangado quando a filha disse que amava Lisandro.
O pai levou Hérmia até o duque de Atenas para reclamar. O duque, um homem justo, olhou para a moça com carinho e disse: "Vou lhe dar alguns dias para pensar com calma. O coração é coisa séria, e ninguém deve ser obrigado a se casar sem amor."
Lisandro, porém, teve uma ideia. "Hérmia, vamos até a casa da minha tia, que mora bem longe daqui. Lá poderemos ficar juntos sem que ninguém nos atrapalhe. Encontro você esta noite na floresta."
Antes de partir, Hérmia contou o plano para a sua amiga Helena. Só que Helena era apaixonada por Demétrio: o mesmo rapaz que queria se casar com Hérmia. Cheia de ciúmes, ela pensou: "Se eu contar a Demétrio que Hérmia vai para a floresta, ele vai atrás dela, e eu poderei ir atrás dele." E foi exatamente o que fez.
Ora, aquela floresta não era uma floresta qualquer. Nela viviam as fadas! E, naquela noite, o Rei e a Rainha das fadas, Oberon e Titânia, estavam brigados por causa de uma bobagem. Estavam tão emburrados que as suas fadinhas se escondiam, tímidas, dentro de casquinhas de bolota.
"Que encontro sem graça, orgulhosa Titânia", resmungou Oberon. "A culpa é sua, que vive brigando", respondeu a Rainha, e foi embora com as suas fadas.
Aborrecido, Oberon chamou o seu ajudante mais travesso, um duende chamado Puck. Puck adorava pregar peças: trocava os caminhos das pessoas nas noites escuras e ria alegremente das próprias brincadeiras.
"Puck", disse Oberon, "traga-me a florzinha mágica chamada Amor-perfeito. O sumo dela, pingado nos olhos de alguém que dorme, faz a pessoa gostar da primeira criatura que vir ao acordar. Quero pregar uma brincadeirinha na teimosa da Titânia."
Enquanto Puck buscava a flor, Oberon viu Demétrio passar pela clareira, com a pobre Helena atrás dele. "Não adianta me seguir, eu não quero conversa", dizia Demétrio, sem nenhuma delicadeza. Oberon ficou com pena da moça. "Puck", ordenou, "pingue um pouquinho do sumo nos olhos desse rapaz de roupa ateniense, para que ele passe a amar quem o ama."
Mas Puck se confundiu! Em vez de Demétrio, encontrou Lisandro dormindo e pingou o sumo nos olhos dele. Quando Lisandro acordou, a primeira pessoa que viu foi... Helena! Na mesma hora, esqueceu-se de Hérmia e começou a seguir Helena, dizendo mil elogios.
Percebendo a trapalhada, Oberon correu para consertar tudo e pingou o sumo nos olhos de Demétrio. Só que Demétrio também acordou vendo Helena! Agora os dois rapazes disputavam a atenção de Helena, que achava que estavam zombando dela. E Hérmia, que amava Lisandro, ficou magoada e confusa. Que confusão!
"Ai, ai", suspirou Oberon. "O meu plano de ajudar só atrapalhou. Puck, faça uma névoa suave cobrir a floresta e deixe cada um dormir num cantinho, bem longe do outro. Quando estiverem dormindo, pingue esta outra florzinha nos olhos de Lisandro, para que ele volte a amar a sua Hérmia. Quando acordarem, vão achar que tudo não passou de um sonho de uma noite de verão."
Puck fez tudo direitinho. Espalhou uma névoa macia, guiou os quatro jovens para longe uns dos outros e consertou o feitiço de Lisandro.
Enquanto isso, Titânia dormia num canteiro perfumado de tomilho, violetas e rosas. Oberon, de mansinho, pingou o sumo mágico em seus olhos. Bem naquele momento, um ator atrapalhado ensaiava uma peça ali perto. Puck, brincalhão, colocou nele uma cabeça de burro! Quando Titânia acordou e viu aquela figura de orelhas grandes, achou-a a criatura mais encantadora do mundo.
"Que doçura!", exclamou a Rainha. "Fique comigo! Fadinhas, tratem muito bem deste amigo. Ofereçam a ele damascos, uvas, figos e favos de mel, e abanem o seu rosto com asinhas de borboleta enquanto ele dorme."
As fadas obedeceram, achando tudo muito engraçado, e o ator de cabeça de burro, todo orgulhoso, deixou-se paparicar. Oberon observava de longe, rindo baixinho da própria travessura.
Depois de um tempo, o Rei teve pena de Titânia e pingou a flor que desfaz o encanto. Quando a Rainha acordou e viu que estivera fazendo carinho em alguém com cabeça de burro, caiu na risada. "Ah, Oberon, que sonho estranho eu tive!" Os dois se abraçaram, fizeram as pazes e voltaram a dançar juntos ao luar, como fazem as fadas felizes.
Ao amanhecer, os quatro jovens despertaram. Lisandro olhou para Hérmia e sentiu de novo todo o seu amor. Demétrio olhou para Helena e percebeu que era ela quem o seu coração sempre quisera. Esfregando os olhos, todos riram: "Que sonho esquisito tivemos esta noite!"
Voltaram para Atenas de mãos dadas. O pai de Hérmia, ao ver a filha tão feliz e ao saber que Demétrio agora amava Helena, deixou a zanga de lado e abençoou os dois casais. E assim, em vez de uma grande confusão, tudo terminou em festa e alegria: enquanto, na floresta, o Rei e a Rainha das fadas viveram felizes para sempre.
Moral da História
Brigas e ciúmes só criam confusão; o amor sincero, no fim, sempre encontra o seu caminho. E vale a pena rir dos próprios enganos e fazer as pazes de coração.