Rei Barba-de-tordo

Era uma vez um rei que tinha uma filha muito bonita. Mas, além de bonita, a princesa era tão orgulhosa que achava que ninguém no mundo inteiro era bom o bastante para ela.
Sempre que um pretendente aparecia querendo se casar, ela logo arranjava um jeito de zombar. De um, dizia que era gordo demais; de outro, que era magro demais. Um era alto demais, outro baixo demais. Para a princesa, nunca havia ninguém do jeito certo.
O rei, preocupado, resolveu dar uma grande festa e convidou todos os moços importantes do reino. Um por um, eles se colocaram em fila, e a princesa foi passando e implicando com cada um. Quando chegou diante de um rei vizinho, muito bondoso, mas de queixo um pouquinho torto, ela caçoou:
: Ora, esse aí tem o queixo igual ao bico de um passarinho! Vou chamá-lo de Rei Barba-de-Tordo!
O bom rei apenas sorriu com paciência e foi embora sem se ofender. Mas o pai da princesa ficou muito triste ao ver a filha tratando todos com tanto desprezo.
: Minha filha: disse ele, sério :, você precisa aprender a olhar para as pessoas com o coração, e não com o nariz empinado.
Poucos dias depois, um músico de roupas simples e remendadas apareceu no castelo cantando canções tão lindas que encantaram a todos. A princesa, que ainda não tinha aprendido a lição, torceu o nariz para ele também. Então o rei teve uma ideia para ajudar a filha a enxergar o valor das pessoas humildes: pediu que ela partisse com o músico e conhecesse como vivia a gente simples do reino.
A princesa achou tudo muito estranho, mas foi. O músico a pegou gentilmente pela mão e a conduziu para fora do castelo, rumo a uma vida bem diferente da que ela conhecia.
Caminharam por uma grande floresta, e a princesa perguntou:
: De quem é esta floresta tão bonita?
: É do Rei Barba-de-Tordo: respondeu o músico.
Passaram por um prado verdinho e por uma cidade movimentada, e a resposta era sempre a mesma. A cada vez, a princesa suspirava, começando a se lembrar, com carinho, daquele rei gentil de quem ela havia zombado.
Por fim, chegaram a uma casinha bem pequena.
: É aqui que vamos morar: disse o músico com doçura.
A princesa nunca tinha feito nada sozinha. Não sabia acender o fogo, nem cozinhar, nem costurar. Mas, aos poucos, com paciência e boa vontade, foi aprendendo. Descobriu como era bom conquistar as coisas com o próprio esforço e como as pessoas simples eram trabalhadoras e generosas.
Um dia, o músico sugeriu que ela vendesse potes e panelas no mercado, para ajudar em casa. No começo, a princesa teve vergonha, mas logo se animou e até vendeu bastante. Ela estava mudando por dentro: tornava-se mais humilde, mais gentil e muito mais feliz.
Certa manhã, chegou a notícia de que haveria uma grande festa no castelo do reino vizinho: o Rei Barba-de-Tordo iria se casar! Curiosa e um pouquinho saudosa, a princesa foi espiar de longe. Como o salão estava lindo, cheio de luzes e de gente elegante!
Foi então que o próprio Rei Barba-de-Tordo a viu ali, à porta, e caminhou sorrindo em sua direção. A princesa se assustou e ficou com o rosto quente de vergonha, lembrando de como havia caçoado dele. Mas o rei a tomou gentilmente pela mão e disse, com voz mansa:
: Não tenha medo. Sou eu, o músico que morava com você na casinha; e também fui o rei de quem você um dia zombou. Não fiz nada disso para castigá-la, e sim para ajudá-la a descobrir a bondade que sempre esteve dentro do seu coração.
Os olhos da princesa se encheram de lágrimas.
: Eu fui tão orgulhosa...: disse ela, baixinho.: Não mereço tanto carinho.
Mas o Rei Barba-de-Tordo sorriu e a confortou:
: Você aprendeu, e isso é o que importa. Agora enxerga as pessoas com o coração, e é assim que sempre quis vê-la.
Ele lhe deu roupas bonitas e, cheios de alegria, os dois celebraram um casamento de verdade. E a princesa, que havia se tornado tão boa e gentil, nunca mais zombou de ninguém pelo resto da vida.
Moral da História
A verdadeira beleza está na bondade e na humildade. Quando aprendemos a olhar as pessoas com o coração, descobrimos o valor de cada uma delas.