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Para onde vão as faíscas

Capa do livro de histórias Colorir e Desenhar

Certa noite, quando o vento soprava lá fora e o ar estava frio e limpo, um gato e um cachorro, que eram grandes amigos, cochilavam pertinho um do outro diante da lareira acesa.

A madeira estalava e crepitava, e as faíscas saltavam para todos os lados. Algumas subiam dançando pela chaminé, outras se aninhavam como brasas quentinhas no fundo da lareira, e outras ainda pousavam devagar, fechavam os olhos e adormeciam.

Uma faísca curiosa se aventurou um pouquinho mais longe e caiu bem perto da gata, que deu um pulo de susto e acabou acordando o cachorro.

: Essa quase chamuscou o seu casaco de pelos, dona Gata!: disse o cachorro, espreguiçando-se.

: De jeito nenhum: respondeu a gata, toda cheia de si.: Sou rápida demais para me deixar pegar por essas faíscas bobinhas.

: Bobinhas?: estranhou o cachorro.: Eu acho que elas são até bonitas de se ver, e ainda ajudam a nos manter aquecidos.

: Isso é verdade: admitiu a gata.: Mas aquelas que voam chaminé acima numa noite gelada como esta são mesmo bobas. Podiam ficar aqui, quentinhas e confortáveis, e não sei por que insistem em subir.

A faísca que quase encostara na gata ainda brilhava, e ao ouvir aquilo cintilou um pouco mais forte.

: Se você soubesse o nosso motivo: disse ela, com uma voz baixinha e cheia de luz :, não nos chamaria de bobas. Você não consegue enxergar de onde está. Mas quem tiver a sorte de chegar lá no alto descobre uma coisa maravilhosa.

O cachorro e a gata ficaram curiosíssimos. A faísca, então, os convidou a olhar por si mesmos.

A gata, sempre prudente, pediu ao cachorro que espiasse primeiro. Corajoso, ele chegou perto da lareira e esticou o focinho para dentro. Mas o calor era forte, e num instante ele recuou, com os bigodes um pouco encolhidos, e correu para o cantinho mais fresco da sala.

: Ai, ai!: resmungou ele.: Prefiro ver daqui de longe.

A gata alisou o pelo macio, satisfeita por ter sido tão cuidadosa, e voltou a conversar com a faísca.

: Nós não podemos entrar no fogo: disse ela.: Mas me conte, faísca brilhante: o que acontece com você quando sobe pela chaminé? Tenho certeza de que vira só fuligem, e isso não vale a pena.

: Ah, você se engana: respondeu a faísca.: Nós não ficamos escuras quando subimos. Ao chegar lá em cima, passamos a brilhar para sempre no céu! Se olhar pela chaminé, verá todos os nossos irmãos e irmãs que conseguiram chegar ao topo, piscando para nós quase todas as noites.

: E quem lhe contou isso?: perguntou a gata.: Alguma faísca já voltou para avisar?

: Ah, não: riu a faísca.: Mas nós as vemos lá em cima, cintilando. E, no fundo, todas nós sonhamos em brilhar para sempre.

: Pois eu digo que vocês são bobas: insistiu a gata.: Aquilo que você vê não são faíscas. São estrelas!

: Você pode chamá-las como quiser: respondeu a faísca, tranquila.: Mas nós fazemos parte da mesma luz que ilumina a noite.

Nesse instante, alguém abriu a porta, e uma corrente de ar suave levou a faísca de volta para as chamas. Em poucos segundos, lá estava ela, subindo alegremente pela chaminé com todas as outras, rumo ao céu.

A gata observou o fogo por um momento e olhou para o cachorro.

: Sabe de uma coisa?: disse ele, com os olhos brilhando.: Talvez a faísca tenha razão. Vamos lá fora ver se conseguimos encontrá-la entre as estrelas?

A gata se espreguiçou e piscou os olhos.

: Talvez seja verdade mesmo: respondeu ela, baixinho.: De qualquer forma, eu vou com você, e vamos descobrir juntos.

E os dois amigos saíram para o quintal, olharam para o céu enorme e ficaram imaginando qual daquelas luzinhas seria a pequena faísca que havia sonhado tão alto.

Moral da História

Sonhar alto não é bobagem: às vezes é preciso coragem para voar em direção à luz. E, com um amigo ao lado, olhar para o céu fica ainda mais bonito.