Os sapatos vermelhos

Há muito tempo, vivia uma menina muito pobre, chamada Karen, que andava sempre descalça. Numa época triste, sua querida mãe partiu, e a menina ficou sozinha no mundo. Para consolá-la, uma bondosa sapateira lhe deu um par de sapatinhos vermelhos, feitos de retalhos com muito carinho.
Eram simples, mas, para Karen, os sapatos mais lindos que ela já tivera. Um dia, passou pela estrada uma carruagem elegante. Dentro dela ia uma senhora rica e de bom coração, que viu a menina e teve pena.
: Venha morar comigo, querida: disse a senhora, com um sorriso gentil.
E assim Karen foi viver com ela, ganhou roupas novas e uma casa aconchegante. Pela primeira vez, sentiu-se cuidada e feliz.
Certo dia, a rainha visitou a cidade com a pequena princesa. Todos foram vê-las. Karen reparou que a princesa usava lindos sapatos vermelhos, brilhantes como cerejas. "Ah, se eu tivesse sapatos assim...", pensou ela, com um pontinho de inveja no coração.
Algum tempo depois, Karen já tinha idade para ir à igreja, e a boa senhora a levou à loja do sapateiro. Lá, a menina viu uns sapatos vermelhos reluzentes, iguaizinhos aos da princesa. Ela desejou tanto aqueles sapatos que, mesmo sabendo que a senhora não aprovaria, escolheu levá-los.
No domingo, Karen foi à igreja com os sapatos novos. Mas, em vez de prestar atenção, ela só pensava em como seus pés estavam bonitos. Ficou tão vaidosa que se esqueceu de tudo o mais.
Na saída, um velho soldado que estava à porta olhou para os sapatos e disse, com voz misteriosa:
: Que sapatinhos de dançar! Dancem, dancem e não parem!
E deu uma batidinha de leve nas solas. Na mesma hora, Karen sentiu uma vontade enorme de dançar. Deu um passinho... e não conseguiu mais parar! Rodopiou pela rua, girou e girou, sem sossego. Só quando pessoas gentis tiraram os sapatos de seus pés é que ela finalmente se acalmou.
Assustada, Karen guardou os sapatos no fundo do armário. Mas não conseguia esquecê-los.
Nessa mesma época, a boa senhora ficou doente e precisava de cuidados. Karen cuidava dela com carinho, até que uma noite soube que haveria uma grande festa. Sem pensar, calçou os sapatos vermelhos e saiu, deixando a senhora sozinha.
Mal deu o primeiro passo, os sapatos tomaram conta de seus pés outra vez. Dança daqui, dança dali, eles a levaram para longe, para dentro da floresta escura. Karen ficou triste e arrependida.
: Ah, por que deixei a boa senhora sozinha?: chorou ela.: Eu queria tanto estar lá, cuidando dela!
E, no instante em que seu coração se encheu de amor pelos outros, em vez de vontade de aparecer, a magia dos sapatos foi ficando fraquinha. Devagar, Karen conseguiu tirá-los dos pés. Os sapatos vermelhos rodopiaram sozinhos rumo ao horizonte e desapareceram para sempre.
Descalça e mais leve de coração, Karen voltou correndo para casa. Cuidou da boa senhora com todo o carinho até ela ficar boa de novo. E aprendeu, para sempre, que a coisa mais bonita do mundo não são os sapatos brilhantes, mas um coração que cuida de quem a gente ama.
A partir daquele dia, Karen viveu feliz e tranquila, valorizando muito mais a bondade do que qualquer enfeite.
Moral da História
A vaidade pode nos fazer esquecer o que realmente importa. Cuidar de quem amamos vale muito mais do que qualquer coisa bonita e brilhante.