O que o relógio disse a Dolly

Dolly Dimple estava sentada num tapetinho macio, bem pertinho da lareira do salão, pensando na vida. As chamas estalavam devagar, e os troncos cobertos de musgo pareciam sussurrar histórias antigas do verão na floresta.
A casa de Dolly era muito, muito velha: tinha mais de cem anos! O salão era o cantinho preferido dela. Tinha um chão de madeira brilhante, tapetes fofinhos e, lá no primeiro degrau da escada larga, morava um relógio enorme.
O relógio era mais alto que o papai de Dolly. Atrás de uma portinha de vidro dava para ver os pesos e o pêndulo, que já não se moviam havia muitos anos. Em cima ficava um mostrador redondo e simpático, com um jeitinho de rosto bondoso.
Dolly tinha certeza de uma coisa: aquele relógio parecia mudar de cara. Quando ela estava alegre, ele sorria docemente. Quando ela ficava emburrada: e, olha, às vezes ela ficava! :, ele a olhava com um ar tão tristinho que dava até dó.
O mais curioso de tudo é que o relógio ainda batia. Não era comum, não! Suas engrenagens estavam paradas fazia anos, mas, de vez em quando, sem ninguém esperar, ele soltava um "blém" bem sonoro. Ninguém sabia adivinhar a hora.
Naquela noite, Dolly estava mais curiosa do que nunca. Pela manhã, o relógio tinha batido cinco vezes. Como será que ele sabia que aquele era o quinto aniversário dela? Ela ficou pensando, pensando, até seus olhinhos começarem a pesar.
O estalar da lenha foi ficando distante. O cri-cri do grilo, que morava atrás da lareira, foi ficando fraquinho. De repente, uma voz rouca quebrou o silêncio: "Dolly! Dolly Dimple!"
Dolly deu um pulo, e o grilo, assustado, quase caiu para trás. De onde vinha aquela voz? Ela olhou com cuidado pelo salão, até que seus olhos pousaram no velho relógio. Foi ele quem falou!
"Você gostaria de ouvir uma história, Dolly?", perguntou o relógio. Ora, não havia nada de que Dolly gostasse mais do que uma boa história! Esquecendo o susto, ela respondeu depressinha: "Ah, sim, relógio! Pode me contar uma?"
"Isso eu posso", disse o relógio. "Vou te contar a história da minha própria vida." Dolly se ajeitou no tapete, o grilo endireitou o bonezinho e cruzou as mãos para prestar bastante atenção, e o fogo brilhou mais quentinho.
"Talvez você me ache mais interessante", começou o relógio, "se souber que, há muito, muito tempo, não existia nenhum relógio no mundo inteiro." "Sem relógios?!", espantou-se Dolly. "Mas como as pessoas sabiam a hora da escola, ou do jantar?"
"Tinham outros jeitos de contar as horas", explicou o relógio. "Um dos primeiros foi... uma varinha!" "Uma varinha?", riu o grilo, desconfiado. "Isso é conversa de relógio maluco!"
"Meus pais me ensinaram que é falta de educação interromper", disse o relógio, com paciência. "Tem toda razão", concordou Dolly. "Vamos ficar quietinhos, não vamos, grilo?" O grilo suspirou, mas ficou.
"Experimente você mesma", continuou o relógio. "Numa manhã de sol, finque um graveto na terra. Bem cedo, a sombra dele fica comprida. Quando chega o meio-dia, a sombra encolhe tanto que quase some. E, à tardinha, ela cresce de novo para o outro lado, até a noite cobrir tudo. Foi assim que alguém inventou o relógio de sol."
Dolly achou aquilo lindo. O relógio contou ainda que, muito antes de existirem relógios bonitos como ele, as pessoas usavam até os olhinhos dos gatos para adivinhar as horas, porque eles mudam de tamanho conforme o dia passa. "Que trabalheira!", riu Dolly.
"Pois é", disse o relógio. "Por isso os inventores capricharam, até nascer um relógio de verdade. E eu... ah, eu fui feito com muito carinho. No dia em que fiquei pronto, o relojoeiro girou uma chave grande, meu pêndulo balançou, e eu comecei a fazer 'tique-taque, tique-taque'. Foi o começo da minha vida!"
"Logo uma senhora me comprou e me trouxe, atravessando o mar, para este salão. Quantas crianças de olhos brilhantes eu vi subindo e descendo estas escadas! Amei todas elas. E, sabe de uma coisa? Muita gente achava que eu só dizia 'tique-taque'. Mas eu, na verdade, dizia bem baixinho: 'Faça o bem, faça o bem'."
"Querido relógio!", murmurou Dolly, emocionada. Até o grilo virou o rostinho e enxugou uma lágrima. "Antes de eu parar", disse o relógio, "preciso confessar uma coisa. Faz tempo que meus ponteiros se cansaram e não giram mais. Nos dias em que fico com saudade do passado, bater é o meu maior consolo."
"Então bata quantas vezes quiser, meu amigo!", exclamou Dolly. Nesse instante, uma voz chamou: "Dolly! Dolly Dimple!" Era Harry, o irmão dela, rindo. "Ora essa, uma menininha dormindo no dia do próprio aniversário!"
"Dormindo? Eu não!", disse Dolly. "O relógio estava falando, e o grilo, e..." "Sei, sei", brincou Harry. "Derrubei o atiçador e a pá bem do seu lado e você nem se mexeu." Dolly olhou para o relógio e ficou quietinha.
O mostrador brilhava sobre ela como sempre, mas com um ar tão sábio que parecia dizer: "Fique tranquila. Guarde tudo o que eu te contei. Aprenda uma coisinha nova todo dia, com quem você puder. E lembre-se sempre: mantenha as mãozinhas ocupadas e faça o bem, faça o bem."
Dolly esfregou os olhos e sorriu para o irmão. Ela ficou feliz por ter guardado o segredo só para si. Mas, quando cresceu, adorava reunir os pequeninos ao pé da lareira e contar, com carinho, a história chamada "O que o relógio disse a Dolly".
Moral da História
Aprender um pouquinho todos os dias e manter as mãos ocupadas fazendo o bem enche o nosso coração de alegria. Cada momento é precioso quando escolhemos usá-lo com bondade.