O Pequeno Girino

No riacho que passa pelo campo, contorna a colina e atravessa a floresta, moram muitas criaturinhas: caramujos devagarinhos, peixes velozes, camarões saltitantes e, debaixo de uma pedra fresquinha, um pequeno lagarto marrom muito atarefado.
O lagarto vivia ocupado, sempre cuidando de alguma coisa. Ensinava os camarões a trocar de casca, mostrava aos caramujos onde achar folhinhas macias e ajudava todo mundo com muito carinho.
Certa manhã, subindo o riacho, ele viu um girino deitado num raso ensolarado, com o focinho quase fora d'água. Chegou pertinho e ouviu o girino suspirar baixinho:
: Ah, que lindo! Que bonito!
: O que é tão bonito?: perguntou o lagarto, curioso, olhando para todos os lados.
: A cantoria!: respondeu o girino.: Você não está ouvindo?
O lagarto apurou os ouvidos e, então, escutou: era um coro de pássaros cantando pela floresta, pelo campo e pelo mato. De fato, era muito bonito.
: É lindo mesmo: concordou o lagarto.: Mas por que você suspira assim, tão tristinho?
O girino demorou a responder. Enfim, murmurou:
: É que parece que existe uma canção dentro de mim, querendo sair. Eu tento e tento, mas não consigo fazer nenhum som. Ah, se eu pudesse cantar como os pássaros!
: Cantar?: riu o lagarto, com gentileza.: Eu nunca cantei e vivo muito bem! Mas, se isso te deixa feliz, vou te ajudar a descobrir um jeito.
Foi o começo de uma bela amizade. Todas as manhãs o lagarto ia visitar o girino, e nunca zombava dele. Só pensava em como ajudar o amiguinho a encontrar a sua voz.
Um dia, o girino acordou muito assustado:
: Ó lagarto, lagarto, olhe para mim! Estou tremendo dos pés à cabeça… espere, agora tenho pés!
Era verdade! Duas perninhas pequeninas haviam brotado. Logo depois, surgiram mais duas, na frente.
: Serão asas?: perguntaram os dois, cheios de esperança.
Mas não eram asas: eram mais patinhas.
: Ah, não!: choramingou o girino.: Assim eu nunca vou voar nem cantar!
O lagarto abraçou o amigo e disse com ternura:
: Calma, amiguinho. Talvez essas mudanças todas queiram te levar para um lugar bonito. Vamos ter paciência e esperar juntos.
E o tempo foi passando. A cauda do girino foi ficando cada vez menor, e ele sentia uma vontade estranha de subir nas pedras para respirar o ar fresco. Um dia, o velho e sábio camarão do riacho veio visitá-lo. Ao ver o girino, arregalou os olhinhos e riu:
: Girino doente? Ora, isto não é mais um girino! Por que você não está lá no brejo, cantando com todos os outros? Você virou um sapo!
: Um sapo?!: exclamou o lagarto.
O jovem sapo deu um pulo enorme, cheio de alegria.
: Um sapo! É a melhor coisa do mundo!: gritou ele.: Então eu tenho a minha própria canção! Obrigado, meu querido amigo. Nunca vou te esquecer!
E, com o coração feliz, o sapo foi encontrar seus irmãos no brejo.
O lagarto ficou um pouquinho sozinho e saudoso. Mas, toda noite, ouvia o coro dos sapos cantando à luz da lua. E, quando uma voz se erguia mais alta e mais bonita que as outras, ele sorria, sabendo que era o seu amigo.
: Afinal: dizia o lagarto para si mesmo :, existe mais de um jeito de cantar. Cada um tem a sua voz.
Moral da História
Cada um de nós tem um dom especial, que aparece no seu tempo certo. Com paciência e amigos que nos apoiam, sempre encontramos a nossa própria canção.