O Encontro dos Ventos

Era uma vez, num campo verdinho perto de um rio, o Vento Norte e o Vento Sul se encontraram. Na noite anterior, o Vento Norte havia trazido neve, mas logo o Vento Sul soprou e derreteu quase tudo. Só ficaram algumas manchinhas brancas nas margens ensolaradas do riacho.
Assim que se aproximaram, o Vento Sul cumprimentou, gentil:: Bom dia, irmão! Que bom ver você, mesmo que o seu sopro tão frio me dê arrepios.
: Pois eu não estou nada contente: respondeu o Vento Norte, emburrado.: Por que você derreteu a minha neve tão depressa? Não podia deixá-la descansar pelo menos um dia?
: É que chegou a hora da grama e das flores, irmão. Eu tenho o meu trabalho a fazer: explicou o Vento Sul com doçura.
: Não precisava de tanta pressa: resmungou o Vento Norte, todo corpulento.: Quando dois amigos se encontram, devem ser gentis um com o outro.
: Mas eu preciso chamar as margaridas e acordar as rosas: disse o Vento Sul.: Tenho que deixar todos os campos verdinhos antes do mês de maio. Olhe só o prado, como está marrom! E as árvores, como estão peladas! Mal se vê uma abelhinha zumbindo ao sol.
: Não me importo com as suas margaridas nem com as suas abelhas: murmurou o Vento Norte.: Você quer me apressar, mas eu não vou embora tão cedo.
: Ora, você não teve o inverno inteirinho para você?: perguntou o Vento Sul, paciente.: Congelou os riachos, guardou os meus passarinhos e as minhas borboletas e cobriu tudo de neve. Agora é a minha vez!
: O inverno é o meu tempo: insistiu o Vento Norte.: Ele é meu, e você não devia estar aqui.
: E a primavera é o meu tempo: respondeu o Vento Sul.: Você sabe muito bem: agora os campos são meus.
: Você se acha muito importante: disse o Vento Norte, cruzando os braços de ar.: Mas eu sou mais forte! Voo mais longe e vejo coisas que você nunca viu. Sabe de onde eu vim esta manhã?
: Conte para mim, não consigo adivinhar: sussurrou o Vento Sul, curioso.
: Vim lá do Polo Norte, onde o mar fica congelado e a terra é coberta de neve que nunca derrete. Lá mora o urso branco. Vi um deles agorinha, pescando peixinhos num buraco que ele mesmo abriu no gelo.
: Que interessante! Mas você nunca conheceu a minha casa: disse o Vento Sul, com um brilho no olhar.: Eu venho de bem longe, de uma terra quentinha onde a neve nunca cai e as flores nunca sentem frio. Lá vivem as onças, descansando nos galhos das árvores enormes.
: Pois eu vejo os povos do gelo: contou o Vento Norte :, com suas roupas de pele bem quentes, morando em casinhas de neve. E vejo as luzes do norte, verdes e lindas, dançando no céu como chamas brilhantes. A noite lá é quase tão clara quanto o dia!
: E eu: respondeu o Vento Sul: escuto o canto dos passarinhos todos os dias na floresta onde moro. Sopro na vela de uma canoa e a levo por rios calminhos, onde as árvores se encontram lá no alto. Vejo os flamingos cor-de-rosa entrando na água e os papagaios tagarelando entre os galhos.
Enquanto os dois ventos conversavam, o rio, que ouvia tudo, resolveu falar:: Por que vocês ficam se gabando e provocando um ao outro? Por que não conversam com calma sobre todas as coisas maravilhosas que já viram? Nenhum dos dois trocaria de casa, não é mesmo?
: Não, de jeito nenhum!: responderam os dois ao mesmo tempo.: Eu amo demais a minha casa.
: Então: continuou o rio, sábio :, de que adianta brigar, se os dois estão felizes do jeito que são? Quanto a mim, eu amo vocês dois! Fico contente quando o Vento Norte me cobre de gelo no inverno, e os patinadores vêm deslizar felizes sobre mim. E fico feliz quando o Vento Sul sopra suave na primavera, acorda as rãzinhas na minha beira e traz os meninos para nadar.
: O rio tem razão: disse o Vento Norte, mais calmo.: É verdade, a primavera é a sua hora, gentil Vento Sul. Não vou ficar para atrapalhar as suas flores. Vou voar de volta para o meu lar gelado.
: E me perdoe se fui rude, irmão: disse o Vento Sul, carinhoso.: Quando chegar novembro, deixarei os campos e as florestas para você. Leve este raminho sempre-verde para lembrar de mim, até a gente se encontrar de novo. Adeus!
E assim, os dois ventos se despediram como bons amigos, cada um seguindo para o seu tempo e para a sua casa, felizes por serem tão diferentes.
Moral da História
Cada um tem o seu lugar e o seu momento. Em vez de brigar por causa das diferenças, é muito melhor respeitar e valorizar aquilo que torna cada um especial.