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O conto do inverno

Capa do livro de histórias Colorir e Desenhar

Era uma vez dois reis que eram amigos desde crianças: Leontes, rei da Sicília, e Polixenes, rei da Boêmia. Eles haviam crescido juntos, brincando pelos mesmos jardins, e só se separaram quando cada um teve que cuidar do seu próprio reino.

Muitos anos depois, já casados e com filhos, Polixenes foi passar uma temporada no castelo de Leontes. Que alegria rever o velho amigo! Mas Leontes, que às vezes deixava a imaginação correr solta, teve uma ideia sem pé nem cabeça na cabeça: começou a achar, sem nenhum motivo, que sua querida esposa, a rainha Hermione, gostava mais de Polixenes do que dele.

Era um engano bobo, mas Leontes ficou tão remoendo aquela tolice que não conseguia pensar em mais nada. Triste e confuso, pediu ao seu fiel conselheiro Camilo que fizesse Polixenes ir embora.

Camilo, que era sábio e bondoso, percebeu que o rei estava enganado. Sem querer magoar ninguém, avisou Polixenes com carinho, e o rei da Boêmia voltou para o seu reino naquela mesma noite. Camilo foi com ele e tornou-se seu amigo e conselheiro.

Cego por aquele ciúme sem sentido, Leontes ficou zangado também com a boa rainha Hermione e mandou que ela se afastasse do castelo por um tempo. Foi um erro muito grande, do qual ele logo se arrependeria.

Naqueles dias, a rainha teve uma linda filhinha. Sua amiga leal, Paulina, vestiu o bebê com todo o capricho e o levou para mostrar ao rei, na esperança de que aquele rostinho doce amolecesse o coração dele.

Mas Leontes, ainda teimoso e triste, nem quis olhar para o bebê. Num impulso de que se envergonharia para sempre, ordenou que a menininha fosse levada para bem longe, para uma terra distante. Um servo cumpriu a ordem a contragosto, deixando o bebê, embrulhado em roupas finas e com algumas joias, na costa da Boêmia. Junto ao cobertorzinho, prendeu um papel que dizia: "O nome dela é Perdita, e ela vem de família nobre."

Quando enfim a poeira do ciúme baixou, Leontes acordou como quem desperta de um pesadelo. Olhou em volta e viu o tamanho da sua tolice: havia afastado a esposa que tanto o amava e mandado embora a própria filhinha. O coração dele se encheu de arrependimento.

: O que foi que eu fiz?: lamentava-se.: Perdi as pessoas que mais amo por causa de uma bobagem que inventei!

E assim, Leontes passou muitos e muitos anos vivendo com tristeza e pedindo perdão pelos seus erros, prometendo a si mesmo que, se um dia tivesse uma nova chance, jamais a desperdiçaria.

Enquanto isso, bem longe dali, na costa da Boêmia, a bebê Perdita foi encontrada por um pastor de coração enorme. Ele e sua esposa, que não tinham filhos, ficaram encantados com a menininha e decidiram criá-la como se fosse deles.

Perdita cresceu no campo, entre ovelhas e flores, e se tornou uma jovem doce e graciosa. Embora vivesse simplesmente, tinha um jeito nobre e um charme que a faziam brilhar entre todas as moças da aldeia.

Um dia, o príncipe Florizel, filho do rei Polixenes, passava a cavalo por perto e avistou Perdita. Encantado, tornou-se amigo dela e passou a visitá-la quase todos os dias. Para não parecer diferente, ele nem contou que era príncipe: dizia apenas chamar-se Doricles.

Os dois se apaixonaram de verdade. Mas o rei Polixenes, curioso com os passeios diários do filho, resolveu segui-lo disfarçado, junto com o fiel Camilo. Ao descobrir que o herdeiro do trono queria se casar com uma simples pastora, o rei se assustou e, na hora, não deu sua permissão.

Foi então que o sábio Camilo teve uma ideia cheia de esperança. Ele sabia o quanto Leontes ainda sofria de saudade e desejava reencontrar quem havia perdido. Por isso, sugeriu aos jovens apaixonados que fossem até a Sicília pedir a ajuda do rei Leontes. O bondoso pastor foi junto e levou consigo as joias, as roupinhas de bebê e o papel que encontrara com Perdita muitos anos antes.

Quando chegaram, Leontes os recebeu com muito carinho. Foi gentil com o príncipe Florizel, mas não conseguia tirar os olhos de Perdita. Havia nela algo tão familiar...

: Como esta jovem se parece com a minha querida Hermione: murmurou ele, com o coração apertado.: Ah, se eu não tivesse mandado embora a minha filhinha, talvez ela fosse assim...

Quando o velho pastor ouviu o rei falar de uma filha perdida na costa da Boêmia, seu coração deu um salto. Emocionado, contou toda a história e mostrou as joias, as roupinhas e o papel com o nome "Perdita". Não havia dúvida: aquela linda jovem era a filha há tanto tempo perdida de Leontes!

O rei abraçou Perdita com lágrimas de felicidade. E Polixenes, ao descobrir que a moça era, na verdade, a filha do seu velho amigo, deu com todo o gosto a bênção para que ela e Florizel se casassem. A amizade dos dois reis, tão antiga, florescia de novo.

Mesmo com tanta alegria, ainda faltava uma coisa para o coração de Leontes ficar completo. Ele pensava, com saudade, na querida Hermione, que gostaria de ter ali para dividir aquele momento tão feliz.

Foi quando Paulina, a amiga leal, chamou todos com um sorriso misterioso:

: Venham comigo. Guardo, numa sala especial, uma estátua tão parecida com a rainha Hermione que parece viva. Gostariam de vê-la?

Curiosos, Leontes, Polixenes, Florizel e Perdita seguiram Paulina até uma sala onde uma pesada cortina púrpura escondia um recanto. Paulina, com a mão na cortina, disse baixinho:

: Olhem e falem.

E puxou a cortina. Diante deles estava a estátua da rainha, tão perfeita que o rei prendeu a respiração. Ele olhava e olhava, sem conseguir dizer nada.

: É ela mesma...: murmurou por fim.: Só que... a minha Hermione não parecia tão mais velha.

: Ah, isso é a habilidade do escultor: respondeu Paulina, com os olhos brilhando :, que a fez como ela estaria hoje, se tivesse envelhecido a seu lado. Mas... vocês gostariam de ver uma coisa maravilhosa? Eu posso fazer a estátua se mover.

: Tudo o que a senhora fizer, eu quero ver: disse o rei, encantado.

Então, diante do espanto de todos, a estátua se moveu devagar. Desceu do pedestal, deu alguns passos e abriu os braços. Não era uma estátua coisa nenhuma: era a própria rainha Hermione, viva e sorridente!

Durante todos aqueles anos, Hermione estivera segura e bem cuidada pela boa Paulina, esperando com esperança no coração. Ela sabia que o marido havia se arrependido de verdade, mas só queria voltar quando pudesse abraçar também a filhinha perdida. Agora que Perdita fora encontrada, chegara enfim o momento tão sonhado.

Leontes segurou o rosto da esposa e a abraçou apertado, como se nunca mais fosse soltá-la. Foi como um novo e lindo recomeço para os dois. Florizel e Perdita se casaram, os dois reis selaram de novo a velha amizade, e o bondoso pastor foi recompensado por seu coração generoso.

Depois de tantos invernos de saudade, a primavera enfim voltou ao coração de Leontes, quando ele sentiu de novo os braços de quem tanto amava ao seu redor. E todos viveram juntos, em paz e felizes.

Moral da História

Não devemos deixar o ciúme e as ideias tolas nos afastarem de quem amamos. E, mesmo depois de um grande erro, o arrependimento sincero e o amor podem trazer de volta a alegria e um novo começo.