Pular para o conteúdo

Hans Desajeitado

Capa do livro de histórias Colorir e Desenhar

Bem no interior do país havia uma casa grande e antiga, onde morava um velho senhor com seus três filhos. Os dois mais velhos se achavam muito espertos e decidiram que iriam cortejar a filha do rei. É que a princesa havia anunciado a todo o reino que escolheria para marido o rapaz que soubesse conversar melhor, com palavras bem escolhidas.

Os dois irmãos se prepararam a semana inteira. Um deles decorou o dicionário de cabo a rabo e ainda três anos de notícias do jornal da cidade; sabia repetir tudo de trás para a frente. O outro decorou todas as leis e regras da região e achava que poderia falar de qualquer assunto importante.

: Vou conquistar a princesa!: dizia cada um, muito convencido.

O pai, orgulhoso, deu a cada um deles um belo cavalo: um preto como a noite e outro branco como leite. Os dois se enfeitaram todos e se prepararam para partir.

Nesse momento, chegou o irmão mais novo, chamado Hans. Ele não tinha decorado dicionários nem leis, e por ser um pouco atrapalhado todos o chamavam, com carinho, de "Hans, o desajeitado".

: Ei! Aonde vocês vão tão arrumados?: perguntou Hans.

: Vamos ao castelo do rei pedir a mão da princesa!: responderam os irmãos, rindo dele.: Você não soube do anúncio?

: Que ótimo! Então eu também vou!: exclamou Hans, animado.

Os irmãos caíram na gargalhada e foram embora sem ele.

: Paizinho: disse Hans :, eu também quero um cavalo!

: Você não sabe escolher as palavras como seus irmãos: respondeu o velho senhor, balançando a cabeça.: Não tenho cavalo para lhe dar.

: Não faz mal!: disse Hans, sem perder o bom humor.: Então vou montar no meu bode, que gosta muito de mim!

E, subindo no bode, saiu galopando pela estrada, cantando alegremente:

: Êpa, lá vou eu! Aí vou eu!

Os irmãos seguiam à frente, caladinhos, ensaiando na cabeça os discursos bonitos que tinham decorado.

: Olá!: gritou Hans, alcançando-os.: Vejam só o que achei no caminho!: E mostrou uma velha ferradura reluzente.

: Para que isso?: riram os irmãos.

: Ora, é sinal de sorte! Vou dar de presente à princesa: respondeu Hans, guardando-a no bolso.

Mais adiante, ele encontrou um velho tamanco de madeira e um punhado de argila macia, e guardou tudo, contentíssimo.

: Que tesouros!: dizia ele.: A princesa vai adorar!

Os irmãos apenas reviraram os olhos e apressaram os cavalos, chegando bem antes ao castelo.

Lá, muitos pretendentes esperavam em fila. Um por um entravam no grande salão, mas, diante da princesa, ficavam nervosos e esqueciam tudo o que tinham decorado. O salão era muito quente, com um fogo aceso, e nas janelas havia escrivães anotando cada palavra para publicar no jornal do dia seguinte. Aquilo deixava todos ainda mais atrapalhados.

Chegou a vez do primeiro irmão, o que sabia o dicionário.

: Que calor terrível aqui!: foi só o que ele conseguiu dizer, gaguejando.

: Pois é, meu pai está assando frango hoje: respondeu a princesa, tranquila.

O irmão ficou tão nervoso que não lembrou de mais nada e saiu calado. O segundo irmão, o das leis, entrou em seguida, mas também travou e não soube o que falar.

Então entrou Hans, montado no seu bode, sem medo nenhum.

: Nossa, que calorão gostoso aqui!: disse ele, sorrindo.

: É que estamos assando frango: respondeu a princesa.

: Que sorte a minha!: exclamou Hans.: Será que a senhora me empresta um cantinho do fogo? Trouxe meu próprio tamanco para usar de panela!

A princesa riu, achando graça.

: E o molho, como fica?: brincou ela.

: Ah, isso eu tenho de sobra!: respondeu Hans, tirando a argila do bolso.: Trouxe bastante!

A princesa riu ainda mais.

: Você é diferente de todos os outros: disse ela, encantada.: Não decorou discursos, mas sabe responder com alegria e ser você mesmo. E sabia que tudo o que dizemos aqui vai sair no jornal amanhã? Aqueles escrivães nas janelas estão anotando tudo, e o chefe deles é o mais sério de todos.

: Então vou dar meu melhor presente a ele!: disse Hans, e ofereceu ao chefe dos escrivães um pedacinho da sua argila, tão sério e de bom coração que todos no salão caíram na risada.

: Muito bem!: disse a princesa, batendo palmas.: Eu não teria feito melhor. Você é sincero, alegre e não tem medo de ser quem é. É com você que eu quero me casar!

E assim, o bondoso Hans, aquele que todos chamavam de desajeitado, ganhou o coração da princesa, uma coroa e um lugar de honra no castelo. Seus irmãos, que só sabiam repetir o que tinham decorado, aprenderam que ser verdadeiro vale muito mais do que se exibir.

Moral da História

Ser sincero e alegre, sem medo de ser quem a gente é, encanta muito mais do que decorar palavras bonitas para impressionar os outros.