Graciosa e Percinet

Era uma vez um rei que tinha uma filha chamada Graciosa. Ela não era apenas bonita: era gentil, alegre e de bom coração, e todos no reino a adoravam. Perto dali, num castelo sombrio, vivia uma duquesa chamada Grognon, tão mal-humorada quanto rabugenta, que tinha inveja da doçura da princesa.
Certo dia, durante uma caçada, o rei passou perto do castelo de Grognon. A duquesa, muito interessada, convidou-o a entrar e o levou até seus grandes salões, cheios de baús trancados.
: Estes baús estão cheios de tesouros: disse ela, abrindo um deles. Para espanto de todos, dele escorreram moedas de ouro reluzentes. De outro, saíram pérolas e diamantes.
: Ora, com riquezas assim a senhora poderia comprar meu reino inteiro!: exclamou o rei, que gostava demais de ouro.
: Pode ficar com todos eles: respondeu a duquesa, com um sorriso torto :, se me deixar ser a sua rainha.
O rei, encantado com tanta riqueza, aceitou depressa. Mas Grognon fez uma exigência: só se casaria se pudesse mandar em tudo o que dizia respeito à princesa Graciosa. E o rei, pensando apenas no ouro, concordou.
Quando soube da notícia, Graciosa ficou preocupada, pois só ouvira falar coisas ruins da duquesa. Mesmo assim, não quis estragar a alegria do pai e ficou calada. Foi então para uma pequena floresta e ali chorou baixinho. De repente, surgiu diante dela um jovem de aparência encantadora.
: Princesa: disse ele com voz gentil :, eu sou Percinet, o príncipe das fadas. Há muito tempo admiro a sua bondade. Tenho o dom de me tornar invisível, e vim dizer que quero ajudá-la e protegê-la sempre.
Graciosa ficou comovida com tanta gentileza. Conversaram um pouco, e ela se sentiu mais corajosa para enfrentar o que viria.
A duquesa, porém, era invejosa. No dia em que a princesa apareceu montada num belo cavalo, todos só tinham olhos para Graciosa, e Grognon ficou furiosa. A partir daí, inventou uma série de dificuldades para atrapalhar a menina. Mas, a cada apuro, Percinet aparecia com sua varinha mágica para socorrê-la, e nada de mal conseguia alcançá-la de verdade: os castigos se desmanchavam no ar como penas leves.
O casamento do rei com Grognon aconteceu, e logo a duquesa começou a maltratar a princesa. Um dia, levou Graciosa até o meio de uma floresta escura e a deixou sozinha entre as árvores.
: Percinet, onde você está?: chamou a princesa, tremendo de medo.
Nesse instante, uma luz brilhante iluminou tudo. A floresta se transformou numa cidade encantada de ruazinhas reluzentes, e no fim havia um palácio de cristal. Era obra do príncipe das fadas, que a esperava mais bondoso do que nunca. Ele a levou para conhecer sua mãe, a rainha das fadas, e Graciosa passou ali dias felizes, cercada de carinho.
Mas a princesa sentia saudade do pai e temia que ele a julgasse perdida.
: Preciso voltar para casa, Percinet: disse ela.: Meu pai precisa saber que estou bem.
Percinet ficou um pouco triste, mas preparou uma carruagem e a levou de volta, sempre pronto a ajudá-la.
De volta ao palácio do rei, Grognon inventou tarefas impossíveis para Graciosa, certa de que a princesa não daria conta. Primeiro, deu-lhe um enorme novelo de fios finíssimos, todos embaraçados, sem começo nem fim.
: Desembarace tudo sem arrebentar um único fio: ordenou a duquesa.
Graciosa tentou, mas os fios se rompiam a cada toque. Aflita, ela chamou:
: Percinet, por favor, me ajude!
Num piscar de olhos, ele apareceu. Com um toque da varinha mágica, o novelo se desenrolou sozinho e ficou perfeitamente arrumado.
: Obrigada, meu amigo: disse Graciosa, aliviada.
No dia seguinte, Grognon trouxe uma cesta transbordando de penas de mil pássaros diferentes.
: Separe cada pena de acordo com a ave: exigiu.
A princesa olhou aquele monte e não sabia por onde começar. Mais uma vez, chamou por Percinet, e mais uma vez ele veio. Três toques de varinha, e as penas voaram para o ar, formando montinhos organizados, cada um de um pássaro.
Ainda mais irritada, a duquesa deu à princesa uma caixa muito enfeitada.
: Leve esta caixa até meu castelo e coloque-a sobre a mesa: disse.: Mas, aconteça o que acontecer, não abra a caixa!
No caminho, cansada e curiosa, Graciosa hesitou.
: Vou só dar uma espiadinha rápida... ninguém vai notar: pensou ela. E, sem pensar direito, levantou a tampa.
De dentro pularam dezenas de pequeninos alegres, que saíram correndo pelo campo, rindo e se escondendo atrás das flores. Por mais que Graciosa tentasse, não conseguia juntá-los de volta.
: Percinet!: chamou ela, envergonhada por ter desobedecido.
O príncipe apareceu sorrindo e, com a varinha, convidou gentilmente todos os pequeninos a voltarem para dentro da caixa.
: Aprendi a lição: disse Graciosa.: Vou confiar mais e ser mais paciente.
Grognon, ao ver que todas as tarefas haviam sido cumpridas, ficou sem saber o que fazer. Levou a princesa até o jardim, onde havia um poço fundo, e pediu que ela olhasse lá dentro. Mas, bem na hora, Graciosa escorregou e ficou presa lá embaixo, no escuro.
: Ah, Percinet: sussurrou ela :, como fui tola em não confiar mais no seu carinho...
Nesse instante, notou uma luzinha suave brilhando numa portinha ao lado. Ela se lembrou de que o palácio das fadas era um lugar mágico e cheio de esperança. Rastejou até a portinha e, ao atravessá-la, viu-se num jardim lindíssimo e ensolarado. Percinet já a esperava, com um sorriso e as mãos estendidas.
: Você está a salvo: disse ele, com ternura.: Aqui nada de ruim pode alcançá-la.
Lágrimas de felicidade correram pelo rosto de Graciosa. Ela finalmente entendeu o quanto Percinet a amava e o quanto ela também gostava dele. Pouco tempo depois, casaram-se numa festa cheia de luzes e flores, e a rainha das fadas os abençoou.
E, cercados de amigos, de magia e de carinho, Graciosa e Percinet viveram felizes para sempre.
Moral da História
A bondade e a paciência sempre encontram quem as proteja, e a gente aprende que confiar em quem nos ama de verdade é o caminho mais seguro para a felicidade.