Goldfin e Silvertail

Nelly era uma menina que adorava nadar no mar. Mas, naqueles dias, estava com um resfriado forte, e a mãe tinha pedido que ela ficasse quietinha na areia até melhorar.
: Ah, como eu queria ser um peixe, uma gaivota ou uma sereia: suspirou Nelly, olhando as ondas.: Assim eu poderia ficar na água o tempo todo, brincando sem parar.
De repente, uma Grande Gaivota pousou ao seu lado. No pescoço, usava uma correntinha com uma pedra vermelha que brilhava ao sol.
: Hoje é o seu dia de sorte!: anunciou a gaivota.: Posso realizar um dos seus desejos. Qual será: quer virar peixe, gaivota ou sereia?
: Mas... sereias existem mesmo?: gaguejou Nelly, arregalando os olhos.
: Ninguém pode vê-las: respondeu a Grande Gaivota :, a não ser que eu as torne visíveis. Escolha depressa!
: Então quero ser uma sereia!: disse Nelly, decidida.
Assim que falou, a gaivota desapareceu, e nas ondas surgiram duas lindas sereias. Uma tinha a cauda dourada, e Nelly a chamou de Goldfin. A outra tinha a cauda prateada, e ela a chamou de Silvertail.
: Venha brincar com a gente, Nelly!: chamaram as duas, sorrindo.
: Eu quero muito!: respondeu a menina. E, tomando um golinho da água encantada que as sereias lhe ofereceram, sentiu suas pernas se transformarem numa cauda colorida. Agora ela nadava leve como um peixinho.
: Que felicidade!: exclamou Nelly, abraçando as novas amigas. Depois deu um beijo em cada uma, mas as sereias ficaram surpresas.
: O que é isso que você fez?: perguntaram.
: É um beijo! Dou porque gosto muito de vocês: explicou Nelly.
As sereias se entreolharam sem entender.
: Nós não sentimos as coisas como você: disseram.: Só brincamos, cantamos e dormimos. Não é o bastante para ser feliz?
"Que criaturas curiosas", pensou Nelly.
As sereias levaram a menina para as profundezas do mar. No começo, tudo parecia mágico, mas logo Nelly notou que lá embaixo era silencioso e um pouco sem graça. As sereias passavam os dias apenas brincando, sem se importar umas com as outras. Quando Nelly ficava triste ou cansada, ninguém percebia. Quando queria um abraço, as sereias nadavam para longe, achando graça.
Um dia, elas levaram Nelly para ver um antigo navio que havia parado no fundo do mar.
: E as pessoas que estavam nele?: perguntou Nelly, aflita.
: Todas foram salvas, não se preocupe: respondeu Goldfin.: Ficaram só as caixas de maçãs.
Nelly ficou aliviada e teve uma ideia bonita: pediu às sereias que a ajudassem a levar as maçãs até a praia, para que as crianças pudessem aproveitá-las. As sereias ajudaram, e Nelly viu de longe os rostinhos felizes das crianças colhendo as frutas. Mas ninguém podia vê-la, e o coração dela apertou de saudade.
Ela sentia falta da mãe. Sentia falta do irmãozinho, que toda manhã subia na cama dela para brincar. Sentia falta da casa quentinha e aconchegante.
: Vocês nunca ficam entediadas aqui?: perguntou Nelly.
: Nunca: respondeu Silvertail.: Mas você é diferente de nós. Você tem um coração.
Foi então que Nelly entendeu: era justamente o seu coração, que amava e sentia saudade, que a tornava tão especial. E percebeu que tinha sido tola em reclamar da mãe, que só queria o seu bem.
Nelly esperou muitos dias até que, enfim, avistou de novo a Grande Gaivota lá no alto.
: Por favor, me ajude a voltar a ser menina!: pediu ela.
: Tem certeza?: perguntou a gaivota.: Você não queria tanto ser sereia?
: Fui boba: admitiu Nelly, com os olhos marejados.: Não existe nada melhor do que ter uma família para amar. Quero voltar para casa!
: Muito bem: disse a Grande Gaivota, batendo suas grandes asas.: E você vai sempre cuidar bem de quem te ama?
: Vou, prometo!: respondeu Nelly, do fundo do coração.
A gaivota a levou com cuidado por sobre as ondas até a praia. Quando Nelly esfregou os olhos, viu que estava de novo com as pernas, o vestido de sempre e os pés na areia morna.
: Nossa, você dormiu um bom tempinho: disse uma voz carinhosa e familiar. Era a mãe, que se inclinava sorrindo sobre ela. Ao lado, o irmãozinho pulava de alegria.
: Mamãe!: gritou Nelly, abraçando-a bem forte.: Que saudade eu senti de você!
: Você cochilou aqui na areia e sonhou, minha querida: riu a mãe.: Venha me contar tudo no caminho para casa.
Nelly aninhou-se no colo da mãe e contou toda a aventura. E, enquanto falava, sentia-se a menina mais feliz do mundo, com um coração cheinho de amor, indo para o lugar mais aconchegante e mais querido de todos: o seu lar.
Moral da História
Às vezes desejamos o que não temos e esquecemos das bênçãos que já estão pertinho de nós. O amor da família e um coração que sente são os maiores tesouros que existem.