Décima segunda noite

Era uma vez, num reino chamado Ilíria, um duque gentil chamado Orsino. Ele tinha um coração enorme e sonhava em fazer amizade com uma condessa muito querida da região, chamada Olívia. Só que Olívia estava sempre ocupada e um pouco tímida, e por isso ainda não havia dado atenção aos recados carinhosos do duque.
: Ah, como eu queria ter alguém para conversar sobre as coisas do coração: suspirava Orsino, olhando pela janela do castelo.
Bem naquela época, um navio enfrentou uma tempestade forte perto da costa da Ilíria. As ondas balançaram o barco de um lado para o outro, mas todos conseguiram chegar à praia sãos e salvos. Entre eles estava uma menina corajosa chamada Viola.
Viola sentou-se na areia, olhando o mar, com o coração apertado. Ela tinha um irmão gêmeo chamado Sebastian, e os dois eram tão parecidos que quase ninguém conseguia diferenciá-los. Durante a tempestade, eles haviam se perdido de vista.
: Será que meu irmão está bem?: perguntou ela, com os olhos marejados.
O capitão do navio, que era um homem bondoso, sorriu para acalmá-la:
: Não fique triste, menina. Vi seu irmão se segurando firme num pedaço de madeira. Tenho certeza de que ele também chegou a algum lugar seguro. Espere e confie.
Aquelas palavras aqueceram o coração de Viola. Para se sentir mais protegida enquanto procurava o irmão, ela vestiu roupas de rapaz e passou a se chamar Cesário. Assim disfarçada, ela conseguiu um trabalho no castelo do duque Orsino, ajudando-o no dia a dia.
Dia após dia, Viola ouvia Orsino falar do desejo de ser amigo de Olívia. E, sem perceber direito, ela começou a gostar muito do duque, achando-o gentil e sincero.
Certo dia, Orsino teve uma ideia:
: Cesário, você tem um jeito doce de falar. Vá até a casa de Olívia e diga a ela o quanto eu gostaria de conhecê-la melhor.
Viola foi, mesmo sem muita vontade. Na porta, o mordomo Malvólio, muito sério, quase não a deixou entrar. Mas Viola era educada e firme ao mesmo tempo:
: Trago um recado importante e cheio de carinho. Por favor, deixe-me falar com a condessa.
Olívia ficou curiosa com aquele mensageiro tão corajoso e pediu que ele entrasse. Enquanto Viola falava com doçura das boas intenções do duque, aconteceu uma coisa engraçada: Olívia achou o jovem Cesário tão simpático que ficou encantada por ele: sem saber que, na verdade, Cesário era a Viola disfarçada!
Depois que Viola saiu, Olívia pegou um anel e pediu a Malvólio:
: Corra e entregue este anel àquele jovem mensageiro.
Quando Malvólio alcançou Viola e ofereceu o anel, ela logo entendeu, com sua esperteza:
: Ah, agora percebo... a condessa gostou de mim pensando que sou um rapaz. Que confusão! Meu coração é do duque, e não posso enganar ninguém.
De volta ao castelo, Viola quis, com todo o cuidado, ajudar Orsino a entender os sentimentos. Ela disse baixinho:
: Meu senhor, e se existisse alguém que gostasse do senhor tanto quanto o senhor gosta de Olívia? Alguém bem pertinho, que o senhor nem imagina?
Orsino não desconfiou de nada e apenas sorriu, pedindo mais uma vez que Cesário visitasse Olívia.
Enquanto isso, na casa da condessa, morava um cavalheiro atrapalhado chamado Sir Andrew, que também queria a amizade de Olívia. Ao ver a condessa gostando de Cesário, ele ficou com ciúmes e resolveu desafiar o jovem para uma brincadeira de espadas de brinquedo.
Viola tremia dos pés à cabeça:
: Ai, ai! Eu não sei lutar nem de brincadeira!: pensava ela.
Sir Andrew também estava com medo, então os dois ficaram frente a frente, de espada tremendo na mão, sem coragem de dar nem um passo. Por sorte, alguns guardas passaram por ali e, rindo, mandaram os dois guardarem as espadas e irem tomar um chá para se acalmar. Que alívio!
E o que estaria acontecendo com Sebastian, o irmão de Viola? Pois é, ele também havia chegado são e salvo à Ilíria! Andando pelas ruas, passou justamente pela casa de Olívia. Sir Andrew, atrapalhado como sempre, confundiu Sebastian com Cesário e deu um empurrãozinho nele, achando que era o outro rapaz.
: Ei, cuidado!: disse Sebastian, surpreso.
A confusão só terminou quando Olívia ouviu o barulho e veio correndo. Ao ver Sebastian, ela também pensou que fosse Cesário, de tão parecidos que os gêmeos eram!
: Por favor, entre e descanse: pediu ela, com um sorriso gentil.
Sebastian achou Olívia encantadora e bondosa. Os dois conversaram, riram, e logo perceberam que gostavam muito um do outro.
No dia seguinte, Orsino foi visitar Olívia levando Cesário. Aí a confusão ficou completa: Olívia via Cesário e Sebastian, tão iguaizinhos, e ninguém entendia mais nada!
: Como pode? Um mesmo rosto, uma mesma voz, em duas pessoas!: espantou-se Orsino, olhando dos dois.
Sebastian olhou bem para Viola e o queixo quase caiu:
: Eu tinha uma irmã gêmea... mas nos perdemos na tempestade. Será possível?
Viola, com os olhos cheios de lágrimas de alegria, tirou o disfarce:
: Sou eu, irmão! Sua Viola! Estamos juntos de novo!
Os dois se abraçaram bem forte, girando de felicidade. Todos ao redor bateram palmas, emocionados. A tempestade os havia separado, mas o coração e a esperança os reuniram outra vez.
Vendo Viola sorrir daquele jeito, Orsino finalmente entendeu quem sempre estivera ao seu lado, gentil e leal.
: Viola, você cuidou de mim com tanto carinho todos esses dias. Quer ser minha grande companheira para sempre?
Viola disse que sim, radiante. E Olívia e Sebastian também combinaram de serem amigos e companheiros para a vida toda. Até Sir Andrew e Malvólio acabaram rindo de toda aquela confusão de rostos parecidos.
E assim, com abraços, risadas e reencontros, todos viveram felizes na Ilíria.
Moral da História
Verdade e bondade sempre encontram o caminho de volta ao coração. E, por maior que seja a tempestade, a esperança nos ajuda a reencontrar quem amamos.