Como a Baleia Ficou com Sua Garganta

Há muito, muito tempo, ó meu querido, vivia no mar uma Baleia enorme, e ela adorava comer peixes.
Comia a estrela-do-mar e o peixe-agulha, o caranguejo e o linguado, o cavalo-marinho e a enguia. Todos os peixes que encontrava pela frente, a Baleia abocanhava num só gole: assim!
Comeu tantos peixes que, por fim, restou apenas um único peixinho em todo o oceano. E esse era um Peixinho Esperto, que nadava sempre bem atrás da orelha direita da Baleia, para ficar longe de perigo.
Certo dia, a Baleia levantou a cabeça acima das ondas e disse: : Estou com muita fome!
E o Peixinho Esperto respondeu, com sua vozinha manhosa: : Nobre e generosa Baleia, você já provou Gente? : Não: disse a Baleia.: Como é o gosto? : Ah, é um sabor diferente: disse o Peixinho.: Mas experimente só um, é o bastante.
: Então me traga um!: pediu a Baleia, batendo a cauda e fazendo o mar espumar.
: Vá nadando bem longe: disse o Peixinho Esperto :, até um lugar no meio do oceano. Lá você vai encontrar, sentado numa jangada, um Marinheiro que se perdeu no mar. Ele veste um par de calças azuis, usa suspensórios (não se esqueça dos suspensórios, meu querido!) e carrega um pequeno canivete. É um homem de muita esperteza e sabedoria, fique sabendo.
A Baleia nadou, nadou e nadou, o mais rápido que pôde. Chegou ao meio do oceano e, numa jangada, lá estava o tal Marinheiro, balançando os pés na água. Ele vestia as calças azuis, usava os suspensórios (lembre-se sempre dos suspensórios, meu querido!) e tinha o canivete no bolso.
Então a Baleia abriu a boca bem grande, bem grande mesmo, e: chuááá!: engoliu o Marinheiro, a jangada e tudo, para dentro de sua barriga quente e escura. Depois estalou os lábios, satisfeita, e girou três vezes sobre a própria cauda.
Mas o Marinheiro, que era um homem de muita esperteza e sabedoria, não gostou nadinha de ficar ali dentro. Então começou a pular e a sapatear, a dançar e a bater os pés, a rodopiar e a saltar por todo lado. Ele fazia tanto barulho e tanta bagunça que a Baleia começou a se sentir muito, mas muito desconfortável.
: Ai, ai!: gemeu a Baleia para o Peixinho Esperto.: Esse homem está me dando soluços! Hic! O que eu faço agora? Hic! : Peça para ele sair: disse o Peixinho.
A Baleia então gritou lá para dentro: : Ei, Marinheiro! Saia daí e comporte-se, por favor! Você me deu soluços! Hic! : De jeito nenhum!: respondeu o Marinheiro lá de dentro.: Só saio se você me levar de volta para a minha terra natal!
E continuou dançando ainda mais.
: É melhor levá-lo para casa: aconselhou o Peixinho Esperto.: Eu bem que avisei: esse é um homem de muita esperteza e sabedoria.
Então a Baleia nadou, nadou e nadou, usando as duas nadadeiras e a cauda, o mais depressa que conseguiu, sempre soluçando pelo caminho. Por fim, avistou a praia da terra do Marinheiro, nadou até bem pertinho e abriu a boca bem, bem grande.
O Marinheiro escorregou para fora e pisou na areia, feliz da vida. Mas, antes de sair, ele teve uma ideia muito esperta. Com o seu canivete, cortou a jangada em pedacinhos e montou uma graaande grade quadrada, toda entrelaçada. Amarrou tudo bem firme com os seus suspensórios (agora você entende por que não se podia esquecer os suspensórios, meu querido!) e, sem que a Baleia percebesse, encaixou a grade bem no fundo da garganta dela.
E ali a grade ficou, presa para sempre!
O Marinheiro, então, foi correndo para casa reencontrar a sua mãe, e viveu muito feliz. E a Baleia também ficou feliz, afinal aprendeu uma lição.
É que, dali em diante, com aquela grade na garganta, a Baleia não conseguia mais engolir coisas grandes. Só cabiam peixinhos bem pequeninos. E é por isso, ó meu querido, que até hoje as baleias comem apenas peixinhos miúdos, e nunca mais tentaram engolir uma pessoa.
Quanto ao Peixinho Esperto, foi se esconder no fundo do mar, com medo de que a Baleia ficasse zangada com ele. Mas a Baleia não guardou raiva nenhuma. Só ficou grata por, no fim das contas, ter aprendido a comer o que era do seu tamanho.
Moral da História
A esperteza e a calma podem resolver até os maiores apuros, e cada um aprende que é melhor buscar aquilo que combina com o seu tamanho.