Buscando o Espirito da Primavera Compressed 1

O frio do inverno já havia passado, e a primavera se aproximava da aldeia de Ndlovu. Logo todos se reuniriam para celebrar a chegada da nova estação, como faziam há muitos e muitos anos.
Entre todos os moradores, ninguém esperava o festival com tanta alegria quanto a pequena Nkanyezi. Para ela, aquele era o dia mais bonito do ano inteiro.
Numa manhã morninha, porém, Nkanyezi ouviu dois anciãos da aldeia conversando baixinho.
: O nosso povo perdeu o espírito da celebração: suspirou um deles, com tristeza na voz.
: Como podemos ter um festival da primavera numa aldeia que esqueceu como se comemora?: respondeu o outro, balançando a cabeça.
O coração de Nkanyezi ficou apertado. "Como o sol vai voltar a brilhar se ninguém cantar para acordá-lo do sono do inverno?", pensou ela. Depois de refletir por um bom tempo, tomou uma decisão corajosa.
: Preciso encontrar o que perdemos: disse ela aos anciãos.: Vou partir em busca das coisas que trarão de volta o espírito da celebração ao meu povo.
Os anciãos sorriram, comovidos com tanta coragem numa menina tão pequena. Deram-lhe a sua bênção e uma sacola de pano para carregar tudo o que encontrasse pelo caminho.
Nkanyezi sentia um friozinho na barriga, mas seguiu em frente acreditando em si mesma. Caminhou o dia inteiro. Subiu uma colina e desceu até um vale. Atravessou um rio largo e escalou entre pedras pontudas, até alcançar a sombra das montanhas vermelhas.
Quando a noite chegava, encontrou uma aldeia cheia de padrões e cores como ela nunca tinha visto. Contou aos anciãos dali sobre a sua jornada, e a mãe daquela tribo lhe ofereceu um presente:
: Com todo o nosso amor, te damos esta tinta, para devolver a cor a uma aldeia que ficou sem brilho.
Nkanyezi agradeceu de coração e guardou a tinta na sacola. Na manhã seguinte, seguiu viagem, animada com o presente colorido.
Caminhou por uma floresta imensa, de árvores altíssimas. Quando o céu escureceu, ouviu ao longe o som de tambores. Correu naquela direção, e sentiu o espírito da dança chegar até os seus pés cansados.
Chegou à aldeia dos Bhubezi, onde as pessoas cantavam e tocavam ao redor de uma fogueira. Nkanyezi nunca ouvira música tão bonita. Contou a sua história, e foi convidada a descansar ali. Pela manhã, o chefe a chamou:
: Minha filha, aqui está um tambor muito especial. Toda vez que você o toca, ele faz uma música diferente.
Nkanyezi agradeceu, encantada, e guardou o tambor na sacola. Seguiu adiante, o coração cheio de música e dança.
No terceiro dia, ao passar por um campo de vacas gordinhas, seu nariz começou a formigar com um cheirinho delicioso. Seguindo o aroma, chegou a uma aldeia onde todos se reuniam em volta de panelas fumegantes de ensopado. Aquela tribo era famosa por seus banquetes, e Nkanyezi provou os sabores mais gostosos da sua vida.
De barriguinha cheia e feliz, contou mais uma vez sobre a sua jornada. No dia seguinte, os cozinheiros lhe deram um presente:
: Nossa filha, com estas especiarias, barrigas felizes estão garantidas! Levamos até você o presente da boa comida.
Nkanyezi agradeceu e guardou as especiarias na sacola. Agora ela sabia que tinha tudo de que precisava. Com o coração leve, começou a longa viagem de volta para casa.
Ao chegar em Ndlovu, os aldeões se reuniram ao seu redor, ansiosos para ouvir suas aventuras. Ela contou tudo o que tinha visto, ouvido e provado. Então abriu a sacola e repartiu com todos os presentes que havia recebido.
O povo se alegrou com aqueles tesouros. Com a tinta, pintaram as casas de cores vivas. Com o tambor, encheram o ar de música. E com as especiarias, prepararam um banquete de dar água na boca.
Graças à generosidade de tantas pessoas e à coragem de uma menina, a aldeia de Ndlovu redescobriu a cor, a música e a dança. E, assim, o espírito da celebração voltou a brilhar bem a tempo do festival da primavera.
Moral da História
A coragem de uma pessoa e a generosidade de muitas podem reacender a alegria de toda uma comunidade.