Batcha e o Dragão

Era uma vez um pastor chamado Batcha. Todo verão, ele levava o seu rebanho de ovelhas para o alto da montanha, onde tinha uma cabaninha aconchegante.
Num dia de outono, Batcha olhou lá para baixo, na encosta, e viu uma coisa muito curiosa. Centenas de cobrinhas deslizavam em direção a um grande rochedo. Ao chegarem lá, elas arrancavam a folha de uma plantinha que crescia perto e tocavam a rocha com ela. E, como num passe de mágica, a rocha se abria! Uma a uma, as cobras entravam, e depois a rocha se fechava de novo.
Batcha esfregou os olhos, cheio de curiosidade.
: Será que vi certo?: pensou.: Vou dar uma espiadinha. O meu cachorro pode cuidar das ovelhas por um tempinho.
Ele caminhou até o rochedo, colheu uma folha da plantinha misteriosa e tocou a rocha no mesmo lugar. Na mesma hora, a rocha se abriu! Batcha entrou com cuidado, e a rocha se fechou atrás dele.
Que lugar espantoso! As paredes brilhavam, cobertas de ouro, prata e pedras preciosas. No centro, sobre uma mesa dourada, uma enorme cobra-rei dormia tranquila, cercada por centenas de cobrinhas, todas em sono profundo.
: Que lugar incrível!: sussurrou Batcha.: Mas já está na hora de voltar para as minhas ovelhas.
Só que, ao se virar, ele percebeu que a rocha estava fechada e não havia como sair. Prático como sempre, Batcha respirou fundo.
: Bem, se não posso sair agora, é melhor esperar aqui até amanhã.
Ele se enrolou na capa, deitou-se num cantinho e logo adormeceu. Acordou com um sussurro baixinho. Abriu os olhos e viu as paredes reluzentes: lembrou onde estava. Agora as cobras estavam acordadas e murmuravam:
: Já é hora? Já é hora?
A cobra-rei levantou devagar a cabeça e disse, com voz calma e profunda:
: Sim, chegou a hora.
Então ela deslizou até a parede, tocou-a com a língua, e a rocha se abriu. As cobras começaram a sair, uma por uma. Batcha correu atrás delas, esperto.
: Vou aproveitar e sair junto!: pensou.
Mas, quando ele tentou passar, a rocha se fechou bem na sua frente. A cobra-rei se virou e disse:
: Você não pode sair assim. Este lugar guarda um segredo.
: Ah, por favor, me deixe ir!: pediu Batcha.: Tenho ovelhas no pasto e uma esposa que me espera lá no vale.
Batcha implorou tanto que, por fim, a cobra-rei concordou.
: Está bem, vou deixá-lo sair. Mas antes você precisa me prometer, três vezes, que nunca vai contar a ninguém como entrou aqui.
Batcha prometeu três vezes, com o coração sincero, e a cobra o deixou passar.
: Cuide bem do seu segredo: avisou ela.
Quando Batcha saiu, ficou boquiaberto: tudo parecia diferente! Ele havia entrado no outono, e agora tudo estava verdinho, como na primavera.
: O que aconteceu?: exclamou.: Será que dormi o inverno inteiro? E as minhas ovelhas? E a minha esposa, o que ela vai dizer?
Com as pernas um pouco trêmulas, ele foi até a cabana. A esposa estava lá dentro. Sem saber bem como explicar tudo, Batcha se escondeu atrás de um arbusto por um instante, para pensar. Foi então que viu um homem muito bem-vestido bater à porta e perguntar pela esposa dele.
A mulher, com a voz embargada, contou ao estranho que o marido tinha desaparecido no outono passado e que ela sentia muitas saudades. Ao ouvir aquilo, Batcha não se conteve e saiu correndo dos arbustos.
: Querida esposa, não fique triste! Estou aqui, são e salvo! Acho que dormi o inverno todo numa caverna!
A mulher parou, surpresa, e depois cruzou os braços.
: Batcha! Onde você se meteu? Deixou as ovelhas e a sua esposa e some por meses? Conte já onde esteve!
O estranho se colocou gentilmente entre os dois.
: Calma: disse ele.: Deixe que eu converso com o seu marido.
E então o estranho mudou de aparência: era, na verdade, o Mago da Montanha, um feiticeiro muito poderoso.
: Ora, ora: sorriu o mago.: Vejo que você me reconhece. Me diga, Batcha: onde esteve o inverno inteiro?
Batcha lembrou-se do juramento que fizera à cobra-rei e ficou calado. Mas o mago perguntou de novo, e mais uma vez, e Batcha, sem coragem para resistir, acabou contando tudo.
: Agora me leve até o rochedo e a planta mágica: ordenou o mago.
Batcha obedeceu, colheu a folha e tocou a rocha, que se abriu. O mago abriu um grande livro de magias e começou a recitar palavras estranhas. De repente, a terra tremeu de leve, e de dentro da caverna surgiu, num rodopio de fumaça, um dragão enorme e reluzente! Era a antiga cobra-rei que, depois de muitos anos, havia se transformado num dragão voador. Ele batia as asas gigantes e balançava o longo rabo entre as árvores.
O mago entregou umas rédeas para Batcha.
: Jogue isto no pescoço dele!: pediu.
Mas, antes que Batcha entendesse o que estava acontecendo, o dragão se abaixou bem devagar, passou por baixo dele, e Batcha se viu sentado nas costas do bicho. Num instante, os dois subiram voando pelo céu!
: Ai, ai! O que eu faço agora?: gritou Batcha, agarrando-se firme.
O dragão subia cada vez mais alto, passando por cima das montanhas e das nuvens. Batcha estava assustado, mas não se machucou. Foi então que ouviu o canto de uma cotovia que subia pelo céu.
: Cotovia querida!: chamou ele.: Por favor, me ajude! Voe lá bem no alto e peça ajuda por mim. Diga que Batcha, o pastor, está preso nas costas de um dragão e promete ser sempre um homem bom e cuidadoso com o que promete.
A cotovia bateu as asas e levou o pedido para bem longe, lá no alto. E veio uma resposta: uma pequena folha de bétula com letrinhas douradas, que a cotovia deixou cair suavemente sobre a cabeça do dragão. No mesmo instante, o dragão desceu mansinho e pousou na terra, tão de leve que Batcha nem se assustou. Depois, o dragão desapareceu, e o rochedo mágico sumiu junto.
Quando Batcha olhou em volta, estava sentado bem em frente à sua cabana. Era fim de tarde, e o seu cachorro trazia as ovelhas para casa. Lá vinha também a sua esposa, subindo o caminho. Batcha deu um suspiro de alívio e sorriu.
: Graças a Deus, estou de volta!: disse ele.: Como é bom ouvir o meu cachorro latir e ver a minha esposa chegando. Talvez ela ainda esteja um pouquinho brava comigo… mas como estou feliz por vê-la de novo!
E, daquele dia em diante, Batcha aprendeu a guardar bem os seus segredos e a valorizar cada momentinho ao lado de quem ele amava.
Moral da História
Uma promessa é algo valioso e deve ser guardada com cuidado. E, depois de qualquer aventura, não há nada tão bom quanto voltar para o aconchego do lar e de quem a gente ama.