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A Princesa Silenciosa

Capa do livro de histórias Colorir e Desenhar

Era uma vez, na antiga Turquia, um paxá: um grande senhor: que tinha um filho único. Ele amava tanto o menino que o deixava aprontar todas, sem nunca lhe ensinar boas maneiras. Um dia, o pequeno príncipe brincava no quintal com a sua bola, meio entediado.

Foi então que viu passar uma senhora carregando um jarro de barro. Sem pensar, o menino atirou a bola bem dentro do jarro, que se espatifou no chão. A mulher não teve coragem de reclamar, afinal aquele era o filho do paxá.

Ela correu para comprar outro jarro. Mas o príncipe, travesso, quebrou o novo jarro do mesmo jeito. E a mulher, paciente, nada disse. Quando ele derrubou o jarro pela terceira vez, porém, ela já não aguentava mais.

Com o dedo em riste, mas sem raiva no coração, ela exclamou:

: Menino levado! Que um dia você se apaixone perdidamente pela Princesa Silenciosa, e só sossegue quando conseguir fazê-la falar!: E, dito isso, foi embora.

Os anos se passaram, e o príncipe crescia pensando cada vez mais naquelas palavras. Sem saber bem por quê, sonhava com a tal Princesa Silenciosa e sentia uma saudade enorme de alguém que nunca tinha visto. Aos poucos, foi ficando abatido e adoeceu.

O paxá chamou todos os médicos do reino, mas ninguém descobria o motivo daquela tristeza nem como curá-la.

: Como começou o seu mal, meu filho?: perguntou o pai, um dia. Então o rapaz lhe contou sobre o jarro quebrado e sobre as palavras da velha senhora.

Compreendendo tudo, o pai deu permissão para que o filho fosse à procura da Princesa Silenciosa.

Foi uma longa viagem, cheia de contratempos. Passou-se um ano até que, finalmente, o príncipe chegou ao palácio da princesa. Ela era filha de um sultão e vivia coberta por sete véus.

Dizia-se que era a moça mais bonita do mundo, mas ninguém jamais tinha visto o seu rosto nem ouvido a sua voz. Havia uma regra: quem conseguisse fazer a princesa falar poderia se casar com ela. Muitos príncipes já tinham tentado e falhado, e, tristes, tiveram de voltar para as suas terras. Sabendo do desafio, o nosso príncipe entendeu que não seria fácil, mas o seu coração apaixonado não recuou.

No mercado perto do palácio, o príncipe encontrou um comerciante que trazia consigo um rouxinol. O passarinho cantava tão alegremente que o príncipe parou para ouvir e acabou comprando-o.

Levou o rouxinol para a hospedaria onde estava. Naquela noite, enquanto pensava em como fazer a princesa falar, ouviu uma vozinha:

: Por que tão triste, meu príncipe?: era o rouxinol!: Não se preocupe, eu vou te ajudar. Faça exatamente o que eu disser, e tudo dará certo.

Naquela mesma noite, o príncipe bateu à porta do palácio e pediu para conversar com a princesa. O sultão permitiu, e ele foi levado até o salão. Ali, discretamente, escondeu o rouxinol atrás de um grande castiçal, como tinham combinado. O príncipe começou a contar as suas aventuras, mas a princesa permaneceu em silêncio, sem se mexer.

Então, de trás do castiçal, saiu uma voz:

: Ora, já que a princesa não parece querer conversar, quem sabe eu possa contar uma pequena adivinha? Posso, meu príncipe?

: Claro, pode contar: respondeu o príncipe, como tinham ensaiado.

E o rouxinol começou:

: Era uma vez uma princesa que não sabia com qual de três irmãos se casar. Para decidir, resolveu testá-los: ganharia a sua mão aquele que fosse o mais habilidoso. Deu a eles seis meses para mostrarem seus talentos. O irmão mais velho aprendeu a viajar meio mundo numa única hora. O do meio aprendeu a enxergar coisas muito distantes. E o mais novo aprendeu a preparar remédios capazes de curar qualquer doença. Passados os seis meses, o irmão do meio olhou para longe e exclamou: "A princesa está muito doente!" O mais novo logo disse: "Eu sei fazer o remédio que a cura!" E o mais velho falou: "Deixem comigo, eu levo o remédio num instante!" E assim, juntos, chegaram a tempo, e a princesa ficou boa. Agora me diga, príncipe: qual dos três irmãos merecia se casar com ela?

: Eu diria que foi aquele que preparou o remédio: respondeu o príncipe.

: Ah, mas sem o irmão que enxergou de longe, ninguém saberia que a princesa estava doente!: retrucou o rouxinol.

E os dois começaram uma discussão animada, cada um defendendo um irmão diferente. Até que, de repente, a princesa não se conteve e exclamou:

: Que bobagem! É claro que foi o irmão mais velho quem merecia! Sem ele, que chegou a tempo, o remédio de nada teria adiantado!

Ao ouvir a voz da filha, os criados correram para avisar o sultão daquele verdadeiro milagre. O sultão veio depressa, mas a princesa, percebendo que tinha caído numa armadilha, fechou a boca de novo. Ainda assim, deixou claro ao pai: só se casaria com quem conseguisse fazê-la falar três vezes.

O príncipe rapidinho escondeu o rouxinol sob o casaco e saiu do palácio.

: Por que essa cara triste?: perguntou o rouxinol, já em segurança.: Correu tudo bem! Voltamos amanhã. É só confiar em mim.

Na noite seguinte, o príncipe voltou ao palácio e, sem ninguém perceber, o passarinho pulou para o alto de uma coluna. Mais uma vez o príncipe falou, e a princesa não fez nenhum som. Então ele se virou para a coluna e disse:

: Bem, coluna, parece que a princesa não quer conversar esta noite. Você sabe por quê?

E a coluna: que era o rouxinol escondido: respondeu:

: Tenho uma boa história para você. Era uma vez uma moça tão gentil que muitos rapazes queriam se casar com ela. Sem saber escolher, resolveu testar três deles. Ao primeiro, pediu que cuidasse do seu jardim durante uma noite inteira de tempestade, para que nenhuma flor se perdesse. Ao segundo, pediu que atravessasse a floresta e trouxesse água da fonte mais pura das montanhas. E ao terceiro, pediu que fizesse companhia à sua avó doentinha, até que ela melhorasse. Os três cumpriram suas tarefas com muita dedicação. Diga-me, príncipe: com qual deles a moça deveria se casar?

: Acho que com o que trouxe a água da fonte: disse o príncipe.

: Não, não! Deve ser o que cuidou do jardim na tempestade, pois foi o que mais se esforçou: respondeu o passarinho.

E lá vieram os dois discutindo, até que a princesa interrompeu, sem conseguir se segurar:

: Como podem falar tamanha bobagem?! Foi o terceiro, é claro! Aquele que fez companhia à velha avó doente teve o coração mais bondoso de todos! Quem mais mereceria se casar com a moça?

Não demorou para a notícia chegar ao sultão. Mas ele ainda não podia consentir no casamento: faltava a princesa falar pela terceira vez.

Na noite seguinte, o príncipe entrou no palácio pela terceira vez, com o passarinho escondido. Dessa vez, o rouxinol se acomodou nas dobras de uma cortina de veludo. O príncipe conversou com a princesa como sempre, sem esperar resposta. E então a cortina começou a falar:

: Era uma vez um carpinteiro, um alfaiate e um estudante que moravam juntos numa casinha. Certa noite, o carpinteiro não conseguia dormir. Para passar o tempo, esculpiu numa madeira a figura de uma linda menina, e depois voltou para a cama. Mais tarde, o alfaiate se levantou, viu a estátua encostada na parede e achou-a tão bonita que costurou para ela um vestido maravilhoso. Por fim, ao amanhecer, o estudante acordou, viu a menina de madeira e desejou, com todo o coração, que ela ganhasse vida. E o desejo se realizou: a menininha começou a respirar e a sorrir! Agora, meu príncipe, os três queriam se casar com ela. Diga: quem tinha mais direito?

: Parece-me que o carpinteiro, que a esculpiu: respondeu o príncipe.

: Ah, mas são os detalhes que embelezam a vida! Eu acho que o alfaiate, que a vestiu, seria a melhor escolha: exclamou o rouxinol.

Mais uma vez, a princesa esqueceu o seu silêncio e gritou:

: Que tolice! Foi o estudante quem a trouxe à vida! Quem mais poderia se casar com ela?

E, enquanto ela falava, os sete véus caíram suavemente, revelando a princesa mais linda que o mundo já vira.

: Você me venceu: disse ela, com um sorriso doce. E os dois se casaram pouco tempo depois, cheios de felicidade.

Viveram muito bem e tiveram muitos filhos. Até a velha senhora do jarro foi convidada a morar com eles, ajudando a cuidar das crianças com todo o carinho. E dizem que ela nunca foi tão feliz.

Moral da História

Às vezes, o silêncio se rompe diante daquilo que realmente importa. E um coração bondoso, como o do rapaz que fez companhia à velhinha, vale mais do que qualquer talento.