A Meia Hora Perdida

Era uma vez uma viúva que tinha três filhos. Os dois mais velhos eram bem espertos, mas o caçula, chamado Bobo, era muito distraído e sonhador, e por isso todos o achavam meio tolinho.
Um dia, a princesa Zenza passava a cavalo pela casa e ouviu a viúva ralhando com o filho mais novo. Curiosa, desceu do cavalo e perguntou o que estava acontecendo.
: É este meu Bobo: suspirou a viúva.: Vive no mundo da lua!
A princesa achou graça e perguntou se podia levar o menino consigo, pois talvez ele a divertisse. E assim Bobo foi morar no castelo. Logo ficou claro que ele era muito atrapalhado, e às vezes riam dele quando fazia alguma trapalhada. Mas Tilda, a jovem que servia as bebidas do castelo, não gostava nada de ver os outros zombando de Bobo.
Tilda era uma moça meiga, de bom coração, que também havia chegado ao castelo havia pouco tempo. Ela olhava por Bobo com carinho.
: Não deixe que riam de você desse jeito: disse ela, gentil.: Você tem um coração muito bom, e isso vale mais do que tudo.
Certa manhã, a princesa Zenza acordou meia hora mais tarde do que o costume. Correu para o jardim, onde os criados a esperavam com o café da manhã.
: Ai, que pena!: disse ela.: Perdi meia hora esta manhã!
Bobo, que ouvia tudo, adiantou-se, prestativo:
: Vossa Alteza, se quiser, eu posso procurar essa meia hora para a senhora!
A ideia de sair procurando uma meia hora perdida fez a princesa e toda a corte rirem.
: Sim, sim! Que Bobo vá procurar a meia hora perdida!: brincaram todos.
E assim Bobo partiu pelo mundo. Antes de sair, despediu-se de Tilda.
: A princesa perdeu meia hora, e eu vou encontrá-la!: disse ele, orgulhoso.: Talvez eu tenha que dar a volta ao mundo inteiro.
Tilda apenas sorriu, desejou-lhe boa sorte e, quando ele não estava olhando, colocou um pãozinho de groselha recém-assado na bolsa de viagem dele.
Bobo cavalgou por colinas e campos, sempre perguntando aos viajantes se tinham visto uma meia hora perdida. O primeiro foi um velho.
: Meia hora perdida?: disse ele.: Eu perdi coisa pior: perdi a minha boa fama! Você viu por aí uma boa fama perdida?
Não, Bobo não vira. Outro dia, encontrou um homem muito rabugento.
: Meia hora?!: resmungou ele.: Eu perdi foi a paciência! É do tamanho de uma melancia e cheia de espinhos. Se achar, me devolva!
Bobo prometeu ficar de olho e seguiu viagem. Chegou à cidade de Zizz, capital do Reino dos Sete Riachos, onde foi recebido pelo rei.
: Não vi sua meia hora: disse o rei, bondoso :, mas, já que você viaja o mundo todo, poderia perguntar se alguém tem notícias da minha filha? Ela desapareceu, levada pelas fadas, há quinze anos. Quem a encontrar, terá minha eterna gratidão.
Bobo prometeu procurar e continuou sua busca. O tempo passou, e Bobo, sempre viajando, tornou-se um rapaz alto e bonito, ainda que continuasse bastante distraído.
Numa dessas viagens, atravessou o mar rumo à Ilha do Ferro. Uma tempestade balançou o barquinho, e Bobo acabou chegando sozinho a uma ilha bonita e deserta. Andando por ali, viu uma pequena porta no tronco de uma grande árvore. Abriu-a e encontrou um par de tamancos com um bilhete: "CALCE-ME".
Assim que os calçou, aconteceu algo mágico: os tamancos serviram perfeitamente e começaram a caminhar sozinhos, guiando Bobo montanha adentro. Depois de dois dias, ele chegou a um castelo magnífico. Justo então, um grande sino bateu sete vezes, e Bobo viu um menino sair galopando num cavalo preto. No portão, um velho de longa barba branca esperava, cercado de onze jovens.
Bobo, cheio de coragem, ajoelhou-se e contou toda a sua história.
: Você deve agradecer às fadas da tempestade: disse o velho, sorrindo :, pois foram elas que o trouxeram até aqui. Eu sou o Pai Tempo, e estes são meus doze filhos: as Horas. Todos os dias, um a um, eles cavalgam ao redor do mundo. O Sete acabou de sair. Vou lhe dar a meia hora perdida, mas primeiro você deve cuidar dos cavalos das Horas por um ano inteiro.
Bobo aceitou de bom grado e cuidou dos cavalos com todo o capricho. Quando o ano terminou, o Pai Tempo lhe entregou uma caixinha de madeira escura.
: A meia hora está aqui dentro: disse ele.: Não abra a caixa até chegar o momento certo, ou a meia hora voará para longe e nunca mais voltará.
Durante aquele ano, o irmão chamado Doze Horas tornou-se grande amigo de Bobo. De despedida, deu-lhe um copo d'água.
: Beba tudo: disse ele.: É a água da sabedoria.
Bobo bebeu, e de repente as ideias ficaram claras em sua cabeça. Lembrou-se do homem que perdera a boa fama, do homem que perdera a paciência e do rei cuja filha desaparecera. Então pediu conselho ao Pai Tempo, que tudo sabe.
: O homem da boa fama perdida deve conversar com carinho com seus vizinhos: assim recuperará seu bom nome: disse o Pai Tempo.: Diga ao segundo homem que a paciência dele está na grama, perto de onde vocês se encontraram. E quanto à filha do rei... é Tilda, a moça que serve no castelo da princesa Zenza.
Bobo agradeceu de coração. Doze Horas o levou de volta em seu cavalo, e os dois se despediram como bons amigos. No caminho para casa, Bobo encontrou o homem da boa fama perdida e lhe passou o conselho. Depois achou, na grama, a paciência enroladinha num grande melão cheio de espinhos, e a guardou para devolver ao dono.
Por fim, foi ao rei, pai de Tilda, e contou tudo. O rei ficou tão feliz que preparou uma carruagem para irem juntos buscar sua filha. Mas, ao chegarem às terras da princesa Zenza, viram fitas de tristeza penduradas nas árvores. Uma senhora chorava nos degraus de uma casa.
: O que aconteceu, boa senhora?: perguntou o rei.
: Ah: soluçou ela :, há três dias um dragão apareceu e pediu à princesa uma ajudante para arrumar sua caverna. Nossa querida Tilda, tão corajosa, ofereceu-se para ir. Faz só meia hora que o dragão a levou!
: Depressa, ao castelo!: gritaram o rei e Bobo.: Talvez ainda dê tempo!
Mas chegaram meia hora tarde demais: Tilda já havia partido com o dragão. Foi então que Bobo se lembrou da caixinha!
: Estou meia hora atrasado... mas eu tenho a meia hora perdida!: exclamou.
Com cuidado, ele abriu a caixinha de madeira. Num piscar de olhos, os ponteiros de todos os relógios voltaram meia hora atrás, e tudo ficou exatamente como estava antes. E lá estava a bela Tilda, sã e salva, diante do castelo, esperando o dragão chegar.
Bobo correu e ficou ao lado dela, disposto a protegê-la. Quando o dragão se aproximou, abrindo sua grande boca fumegante, Bobo teve uma ideia esperta: pegou o melão cheio de espinhos, aquele que guardava a paciência, e o ofereceu ao bicho.
: Toma, dragão! Um pouquinho de paciência para acalmar esse seu gênio!: disse ele.
O dragão mordiscou o melão e, aos poucos, foi ficando mansinho e sonolento. Suspirou, deitou-se ao sol e, calmo como um gatão, foi embora para as montanhas sem incomodar mais ninguém.
Todos comemoraram aos gritos:
: Viva! Viva Bobo e Tilda!
O rei anunciou, radiante, que Tilda era sua filha e, portanto, uma verdadeira princesa. A princesa Zenza pediu desculpas a Bobo por tê-lo tratado como bobo, e ele, de bom coração, a perdoou na hora. Fez-se então uma grande festa. E, quando a alegria diminuiu, Bobo e Tilda, que sempre haviam cuidado um do outro, decidiram ficar juntos para sempre, vivendo muito felizes.
Moral da História
A bondade e um bom coração valem mais do que a esperteza. Quem trata os outros com carinho e não desiste de ajudar sempre encontra a sua recompensa.