A Menina e a Senhora das Estrelas

Bem na beira de uma grande floresta, vivia um lenhador com sua esposa e a filhinha dos dois, uma menina de apenas três anos.
A família era tão pobre que nem sempre tinha pão para comer, e o casal andava muito preocupado, sem saber como cuidar da menina.
Certa manhã, o lenhador entrou na floresta para juntar lenha. De repente, surgiu diante dele uma senhora alta e bela, com uma coroa de estrelas brilhando na cabeça.
: Eu sou a Senhora das Estrelas: disse ela, com voz suave.: Sei que vocês passam por dificuldades. Se quiserem, eu levarei sua filhinha comigo, para o Palácio do Céu. Cuidarei dela com todo o carinho.
O lenhador confiou na senhora e, com o coração apertado, entregou a menina. E assim a Senhora das Estrelas a levou para o alto, onde a menina cresceu cercada de cuidado. Comia pãezinhos doces, bebia leite quentinho e brincava com pequenas estrelas cintilantes, que eram suas amiguinhas.
Quando a menina completou quatorze anos, a Senhora das Estrelas a chamou: : Querida, preciso viajar por um bom tempo. Aqui estão as chaves das treze portas do Palácio do Céu. Você pode abrir doze delas e ver todas as maravilhas que guardam. Mas a décima terceira, esta pequenininha aqui, você não deve abrir de jeito nenhum.
: Prometo que vou obedecer: disse a menina.
Assim que a Senhora partiu, a menina começou a passear pelo palácio. A cada dia abria uma porta. Atrás de cada uma havia jardins encantados, salões de luz e músicas suaves, cada um mais lindo que o outro.
Quando já tinha aberto as doze portas, sobrava apenas a proibida. E a curiosidade foi crescendo, crescendo no coração da menina.
: As estrelinhas nem estão por aqui hoje: pensou ela.: Só vou dar uma espiadinha rapidinha. Ninguém vai saber.
Ela pegou a chavinha, girou na fechadura e a porta se abriu. Lá dentro brilhava uma luz tão dourada e tão forte que a menina ficou deslumbrada. Sem pensar, ela encostou de leve a pontinha do dedo naquele brilho.
Na mesma hora, o dedo dela ficou coberto de ouro puro! Assustada, a menina fechou a porta correndo. Mas, por mais que lavasse e esfregasse, o ouro não saía do dedinho, de jeito nenhum.
Pouco depois, a Senhora das Estrelas voltou da viagem e pediu as chaves de volta. Olhando bem fundo nos olhos da menina, perguntou com doçura: : Você abriu a décima terceira porta? : Não: respondeu a menina, baixinho.
A Senhora percebeu o coração da menina batendo depressa e viu o dedinho dourado, mas não a repreendeu. Perguntou uma segunda e uma terceira vez, dando a ela a chance de dizer a verdade. E, das três vezes, a menina, com medo, respondeu que não.
Então a Senhora das Estrelas disse, com tristeza no olhar: : Você não me contou a verdade, minha querida. Por enquanto, precisará morar na Terra e aprender, com o tempo, o valor de ser sincera. Mas saiba que eu sempre estarei cuidando de você, de longe.
A menina caiu num sono profundo. Quando acordou, estava deitada numa clareira, no meio de uma floresta bem distante. Descobriu, aflita, que não conseguia mais falar. Um velho tronco oco virou o seu abrigo. Ela se alimentava de frutinhas e nozes, e nas noites frias se aconchegava entre folhas secas.
Os anos foram passando. A menina virou uma linda jovem, de longos cabelos dourados que a cobriam como um manto. Mesmo sozinha, ela guardava no peito uma esperança teimosa de que um dia tudo ficaria bem.
Um belo dia, um jovem Rei passeava pela floresta e, ao abrir caminho entre os arbustos, encontrou a moça sentada ao pé de uma árvore. Achou-a tão doce e encantadora que perguntou, admirado: : Quem é você? O que faz sozinha aqui?
A moça não pôde responder, pois não conseguia falar. Mas sorriu com meiguice. : Você gostaria de vir comigo para o meu castelo?: perguntou o Rei. A jovem assentiu com a cabeça. E o Rei, com todo o cuidado, a levou consigo.
No castelo, deram-lhe roupas bonitas e muito carinho. Ainda que não falasse, a moça era tão gentil que o Rei se apaixonou e, pouco tempo depois, os dois se casaram.
Passado um ano, a Rainha teve um lindo bebê. Naquela mesma noite, a Senhora das Estrelas apareceu de novo, com ternura: : Você quer, agora, me contar a verdade sobre a décima terceira porta? Se disser, sua voz voltará. Se ainda guardar o segredo, levarei o bebê comigo para o Palácio do Céu, onde ficará muito bem cuidado, só por um tempo.
Por um instante, a moça conseguiu falar. Mas o medo apertou seu coração e ela não confessou. Então, com carinho, a Senhora das Estrelas levou o bebê consigo.
Na manhã seguinte, o berço estava vazio, e as pessoas do castelo começaram a cochichar coisas estranhas. Mas o Rei, que amava muito a Rainha, não deu ouvidos aos boatos.
Um ano depois, nasceu outro bebê, e tudo se repetiu: a Senhora das Estrelas apareceu, ofereceu à Rainha a chance de dizer a verdade, e mais uma vez o medo falou mais alto. O segundo bebê também foi levado para o Palácio do Céu, com todo o cuidado.
Os murmúrios no castelo aumentaram, e o conselho do Rei ficou desconfiado. Mas o Rei, firme, pediu que todos se calassem, pois confiava no bom coração da esposa.
No ano seguinte, nasceu uma linda menininha. Pela terceira vez, a Senhora das Estrelas veio à noite. Só que dessa vez tomou a mão da Rainha com doçura e a levou por um instante até o Palácio do Céu.
Lá estavam seus dois filhos mais velhos, sorridentes e saudáveis, brincando com um lindo globo colorido do mundo. Ao vê-los tão felizes, o coração da Rainha se encheu de alegria e alívio.
: Seu coração se comoveu?: perguntou a Senhora das Estrelas, com meiguice.: Se agora você admitir que abriu a porta proibida, devolverei seus filhos.
A Rainha respirou fundo. Mas, ainda envergonhada, sentiu a voz travar e não confessou. E foi trazida de volta à Terra.
Quando amanheceu e a terceira criança também estava no céu, os murmúrios cresceram tanto que o conselho decidiu que a Rainha deveria ir embora do reino para sempre. O Rei não conseguiu mais impedir. Com muita tristeza, a Rainha foi levada até a praça do castelo.
Enquanto todos se reuniam, uma nuvem escura se juntou no céu e o vento começou a soprar forte, como se a própria natureza estivesse pesando o coração da moça. E, ali, cercada de silêncio, o orgulho e o medo que a Rainha guardara por tantos anos finalmente se desfizeram.
: Se ao menos eu pudesse contar a verdade antes de partir...: pensou ela, com o coração transbordando. E, de repente, sentiu a voz voltar. Ergueu o rosto e gritou: : Sim! Senhora das Estrelas, eu abri a porta! Eu escondi a verdade por medo, e agora me arrependo de coração!
No mesmo instante, uma chuva suave caiu do céu e afastou as nuvens escuras. Uma luz dourada e quente desceu sobre a praça, e a Senhora das Estrelas apareceu. Ao seu lado caminhavam os dois filhinhos, e em seus braços estava a bebezinha recém-nascida.
: Quem se arrepende e conta a verdade sempre encontra o perdão: disse a Senhora das Estrelas, com um sorriso cheio de bondade.
Ela devolveu à Rainha os três filhos, um a um. O Rei correu para abraçar toda a família, e o castelo inteiro se encheu de alegria. Dali em diante, a Rainha, o Rei e os filhinhos viveram muito felizes: e a Rainha nunca mais escondeu a verdade de ninguém.
Moral da História
Esconder a verdade só faz o coração ficar pesado. Contar o que aconteceu, mesmo depois de errar, sempre abre o caminho do perdão e da paz.