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A Cantiga do Canguru Velho

Capa do livro de histórias Colorir e Desenhar

Você sabia que, muito tempo atrás, o Canguru não era como é hoje? Naquela época, ele era um bichinho cinzento e peludo, com quatro perninhas curtas, e não sabia dar nem um pulinho.

Só que o Canguru era muito, muito vaidoso. Ele achava que merecia ser o animal mais especial de toda a Austrália, e vivia se gabando disso para quem quisesse ouvir.

Um dia, bem cedinho, antes do café da manhã, ele subiu numa pedra e foi falar com o Espírito da Terra, um sábio muito antigo que morava naquelas bandas.

: Ó, grande Espírito da Terra, faça de mim um animal diferente de todos os outros!: pediu o Canguru, cheio de si.

O Espírito coçou a cabeça e disse: : Ora, vá brincar! Você já é bem do jeitinho que deve ser.

Mas o Canguru não desistiu. Foi de novo, mais tarde, e pediu outra vez: : Faça de mim um animal diferente e também muito, muito famoso!

O Espírito só balançou a cabeça: : Vá embora, criatura teimosa!

Ainda assim, o Canguru voltou pela terceira vez, agora quase na hora do jantar: : Por favor, faça de mim diferente de todos os outros animais, famoso e muito procurado por aí!

Dessa vez o Espírito da Terra sorriu de um jeito espertinho: : Ah, isso eu faço! Você pediu para ser bem procurado? Pois que assim seja!

Então o Espírito chamou o Dingo, o cão amarelo do deserto, que estava sempre com fome e cochilando ao sol. : Dingo! Acorde! Está vendo aquele bichinho vaidoso ali? Ele quer ser muito procurado. Pois vá lá e faça ele correr!

O Dingo abriu um olho, depois o outro, sorriu e saltou. : O quê, aquele gatinho-coelho?: riu ele. E saiu correndo atrás do Canguru.

O Canguru levou o maior susto! Saiu disparado em suas quatro perninhas curtas, como um coelho apressado.

Correu pelo deserto. Correu pelas montanhas. Correu pelos campos secos e pelos matos altos. Correu até as perninhas da frente começarem a doer. Mas tinha que continuar correndo!

E o Dingo vinha logo atrás, sorridente e faminto, sem nunca chegar bem perto, mas também sem nunca desistir.

O Canguru correu tanto, tanto, que suas pernas de trás foram ficando compridas, compridas. Quando chegou a um rio largo, sem ponte e sem barco, ele não sabia como atravessar. Então firmou as perninhas e... pulou!

E que pulo! Primeiro pulou pertinho. Depois pulou mais longe. Depois pulou lá longe! Suas pernas ficavam cada vez mais fortes e cada vez maiores.

O Canguru pulava como um grilo, como uma pipoca saltando na panela, como uma bolinha quicando pelo chão. E o Dingo continuava correndo atrás, cada vez mais confuso, se perguntando como aquele bichinho tinha aprendido a saltar daquele jeito.

Quando o sol começou a se pôr, o Espírito da Terra apareceu de novo e disse: : Pronto! Já são cinco horas. Podem parar.

O Dingo se jogou no chão, exausto, com a língua de fora. E o Canguru sentou-se, apoiando atrás de si um rabo comprido e forte, que tinha crescido durante a corrida.

: Ufa! Que cansaço!: resmungou o Canguru, ofegante.: Olha só o que aconteceu comigo! Fiquei com as pernas enormes e um rabo enorme. Nem me reconheço mais!

O Espírito da Terra deu um risinho gentil: : Mas, meu caro, não foi você mesmo quem me pediu para ser diferente de todos os outros e muito procurado? Pois o Dingo procurou você o dia inteiro!

O Canguru olhou para as próprias pernas compridas e para o rabo forte, e foi percebendo, aos pouquinhos, que agora conseguia saltar mais alto e mais longe do que qualquer bicho.

: É verdade: admitiu ele, um pouco sem graça.: Acho que eu pedi as coisas sem pensar direito. Estou tão cansado e faminto!

: Eu também!: disse o Dingo, rindo.: Corri o dia todo e nem lanchei!

Os dois se olharam e caíram na risada. Afinal, tinham passado o dia inteirinho juntos naquela corrida maluca.

: Bem: disse o Espírito da Terra, se despedindo :, amanhã vocês dois arrumam um lanche gostoso e descansam. E você, Canguru, cuide bem dessas pernas novas: elas vão levá-lo muito longe.

E foi assim, dizem por aí, que o Canguru ficou com as pernas compridas e o rabo forte, aprendendo a saltar pelo mundo afora. Nunca mais precisou se gabar de nada: agora era diferente de verdade, do seu jeitinho, e disso ele passou a se orgulhar com humildade.

Moral da História

Antes de desejar ser diferente de todo mundo, vale a pena pensar com carinho: às vezes o que a gente já tem é exatamente o que precisamos. E, quando algo muda, o melhor é agradecer e cuidar bem do que ganhamos.