A Água-Viva E O Macaco

Há muito, muito tempo, no antigo Japão, o Reino do Mar era governado por um rei magnífico. Ele se chamava Rin Jin, o Rei Dragão do Mar, e mandava em todas as criaturas das águas. Seu palácio ficava bem no fundo do oceano e era tão bonito que quase não dá para descrever com palavras.
Rin Jin tinha um coração generoso e ficou muito feliz no dia em que se casou com uma jovem e gentil Princesa Dragão. As escamas dela brilhavam verdes como as asas dos besouros de verão, e o casamento foi a festa mais linda já vista no mar. Os dois viveram muito felizes por um bom tempo.
Mas um dia a jovem Rainha Dragão ficou doente e muito abatida. Perdeu a alegria e o sorriso, e nada parecia animá-la. O rei, preocupado, chamou os melhores médicos-peixes do reino, mas a rainha não melhorava.
Por fim, o médico mais sábio disse ao rei:
: Majestade, conheço um único remédio capaz de devolver a alegria à rainha. Só existe uma coisa no mundo alegre o bastante para curá-la: a canção de um macaco vivo. Dizem que, no alto das árvores, os macacos cantam de um jeito tão divertido que espantam qualquer tristeza.
: Um macaco?: disse o rei.: Mas os macacos vivem na terra firme, e nós só sobrevivemos na água. Como traremos um até aqui?
: Ao sul: respondeu o médico: existe a Ilha dos Macacos. Talvez algum dos seus servos consiga convidar um deles a visitar o palácio.
O servo mais esperto do rei teve uma ideia. Havia no reino uma água-viva que, naqueles tempos antigos, tinha uma casca dura como a de uma tartaruga e se orgulhava muito de saber caminhar na terra com suas perninhas.
A água-viva foi chamada e ouviu a missão, mas ficou preocupada:
: Eu nunca fui a essa ilha e não sei nada sobre macacos. Como vou convencer um deles a vir comigo?
: É simples: disse o servo esperto.: Faça amizade com um macaco. Conte que você é servo do Rei Dragão e descreva as maravilhas do palácio do fundo do mar. Desperte a curiosidade dele, e ele vai querer conhecer tudo!
: Mas como vou trazê-lo até aqui? Os macacos não sabem nadar: disse a água-viva.
: Você o carrega nas costas, na sua casca: respondeu o servo.: Vá com jeitinho.
: Então farei o meu melhor: disse a água-viva, e nadou rumo à Ilha dos Macacos.
Quando chegou, avistou, num galho de um grande pinheiro, exatamente o que procurava: um macaco esperto e bem-humorado.
: Que sorte a minha!: pensou a água-viva. E, aproximando-se do pinheiro, cumprimentou com simpatia:: Bom dia, Senhor Macaco! Que dia lindo, não é?
: Um dia muito lindo: respondeu o macaco lá do alto.: Nunca vi você por aqui. De onde você vem, e qual é o seu nome?
: Meu nome é Água-Viva. Sou um dos servos do Rei Dragão do Mar. Ouvi falar tanto da beleza desta ilha que vim conhecê-la: respondeu ela.
: Fico muito feliz com a sua visita: disse o macaco.
: A propósito: continuou a água-viva :, você já conhece o Palácio do Rei Dragão, lá no fundo do mar?
: Já ouvi falar muitas vezes, mas nunca o vi: respondeu o macaco.
: Ah, então você precisa conhecer! É o lugar mais bonito do mundo. Seria uma pena viver sem nunca vê-lo: disse a água-viva, e passou a descrever os jardins de coral, os salões brilhantes e todas as maravilhas do mar.
O macaco foi ficando cada vez mais interessado e, para não perder nenhuma palavra, foi descendo da árvore galho por galho.
: Já que você nunca viu o palácio: convidou a água-viva :, por que não vem comigo agora? Eu serei o seu guia!
: Eu adoraria: disse o macaco.: Mas, como você sabe, eu não sei nadar!
: Isso não é problema. Suba nas minhas costas, na minha casca, que eu levo você: respondeu a água-viva.
E assim o macaco montou nas costas da água-viva, e os dois partiram mar adentro, a caminho do palácio.
Quando já estavam na metade do caminho, a água-viva, que era muito boazinha mas nada esperta, começou a conversar sem perceber que falava demais:
: Senhor Macaco, você vai adorar o palácio! Sabe, a nossa rainha anda tristonha, e o médico disse que só a sua canção alegre pode curá-la. Por isso pretendemos manter você lá para sempre, cantando para ela todos os dias!
O macaco levou um susto ao ouvir aquilo. Ficar longe da sua floresta, da sua árvore e da sua família para sempre? Ah, isso ele não queria de jeito nenhum! Mas, como era um macaco muito esperto, logo teve uma ideia e disse, todo tranquilo:
: Que pena você não ter me avisado antes! Acontece que eu deixei a minha voz mais bonita, aquela que canta as canções mais alegres, pendurada lá no meu pinheiro para tomar um solzinho. Sem ela, não vou conseguir animar a rainha…
: Você deixou a sua voz para trás?: espantou-se a água-viva.
: Deixei!: disse o macaco.: Eu não sabia que vocês precisavam justamente dela. Mas não tem problema: é só você me levar de volta rapidinho até a ilha, que eu pego a minha melhor voz e trago comigo para a rainha.
A água-viva, boazinha como era, acreditou e nadou de volta até a Ilha dos Macacos. Assim que chegaram, o macaco deu um pulo ágil e subiu para o alto do seu pinheiro, bem seguro.
: Pronto! Agora me passe a sua voz, para levarmos à rainha: pediu a água-viva.
O macaco deu uma risada gostosa lá do galho:
: Ora, minha amiga, ninguém pode tirar a própria voz e deixá-la num galho! Eu só disse isso para poder voltar em segurança para a minha casa. Eu não quero morar longe da minha floresta e da minha família.
: Mas você prometeu!: implorou a água-viva.
: Foi mal, mas essa promessa eu não posso cumprir: respondeu o macaco.: Mesmo assim, quero te ajudar de verdade: leve à sua rainha uma mensagem carinhosa da minha parte. Diga a ela que a tristeza passa quando a gente é cercado de amigos, de música e de alegria. Cantem e brinquem juntos no palácio, que logo o sorriso dela volta!
A água-viva, sem jeito, teve de voltar sozinha ao palácio do Rei Dragão e contar tudo o que havia acontecido. Ficou com vergonha de ter falado demais e deixado o macaco escapar.
Mas o rei, ao ouvir o conselho do macaco, resolveu experimentar. Encheu o palácio de músicas, de danças e de amigos e passou a fazer companhia à rainha com todo o carinho. E, aos pouquinhos, o sorriso dela voltou, e ela ficou boa outra vez!
Quanto à água-viva, dizem que, do apuro daquele dia, ela ficou tão mole de tanto se assustar que perdeu a sua casca dura. E é por isso, conta a lenda, que até hoje as águas-vivas são molinhas da cabeça aos pés, como as que a gente encontra na beira da praia.
Moral da História
Um pouco de esperteza pode nos tirar de uma enrascada, mas ninguém deve ser levado à força. E a melhor cura para a tristeza é a companhia alegre de quem gosta da gente.