Brincadeiras adaptadas para deficiência visual: ideias para casa
Brincar é o principal jeito de a criança aprender sobre o mundo, e isso vale para todas, com ou sem deficiência visual. Quando uma criança enxerga pouco ou não enxerga, ela explora o que está ao redor pelo tato, pela audição, pelo cheiro e pelo movimento. A boa notícia é que muitas brincadeiras que já existem na sua casa podem ser adaptadas com pequenos ajustes, e outras nascem justamente do prazer de sentir e ouvir. Reunimos ideias práticas e acolhedoras para brincar junto, respeitando o ritmo de cada criança.
Como a criança com deficiência visual explora o brincar
A visão é apenas um dos caminhos para conhecer o mundo. A criança com baixa visão ou cegueira usa os outros sentidos de forma mais ativa: reconhece objetos pela textura e pelo peso, localiza pessoas pela voz e pelos passos, identifica ambientes pelo cheiro e pelos sons característicos. Ao adaptar uma brincadeira, o segredo é oferecer informação por esses canais, descrevendo em voz alta o que está acontecendo e deixando a criança tocar, sacudir e experimentar cada material com calma.
Vale lembrar que existe uma diferença grande entre baixa visão e cegueira, e cada criança tem seu jeito. Algumas enxergam contrastes fortes, cores vivas ou objetos grandes de perto. Observe o que funciona para a sua criança e converse com ela sobre o que ela prefere. Ninguém conhece melhor as próprias preferências do que a própria pessoa.
Adaptar brinquedos e materiais que você já tem
Muitos brinquedos comuns ficam acessíveis com ajustes simples. Cole pedacinhos de lixa, feltro ou EVA em peças de jogos da memória para que cada par tenha uma textura diferente, permitindo encontrar os pares pelo tato. Em jogos de tabuleiro, marque as casas com relevo e use peças de formatos distintos para cada jogador. Para quem tem baixa visão, aumente o contraste: desenhos com traços grossos e pretos sobre fundo branco, ou cores bem vivas, ajudam bastante.
Brinquedos que fazem som são grandes aliados. Uma bola com guizo ou sino dentro pode ser localizada de ouvido, o que abre caminho para jogos de rolar e chutar. Potes com grãos, chocalhos caseiros e instrumentos simples convidam a criança a explorar ritmos. Se você gosta de imprimir materiais, veja que muitos dos nossos desenhos e atividades podem virar figuras em relevo quando você contorna os traços com cola colorida ou barbante, criando algo para sentir com os dedos.
Brincadeiras com som, corpo e movimento
Brincadeiras que usam o corpo e a audição são naturalmente inclusivas. No clássico "quente ou frio", a criança procura um objeto guiada pela voz de quem diz se ela está perto ou longe. No jogo de seguir o som, um adulto ou colega faz um barulho constante, batendo palmas ou tocando um chocalho, e a criança caminha em direção a ele em um espaço seguro e livre de obstáculos.
Cantigas com gestos, danças de roda e brincadeiras de imitar sons de animais também funcionam muito bem, porque se apoiam no ritmo e na repetição. Explore nossas sugestões de música e de brincadeiras para montar um repertório. Para o movimento, garanta sempre um ambiente organizado, avisando a criança onde estão móveis e paredes, para que ela se solte com confiança.
Jogos de tato, cheiro e paladar
Os sentidos menos lembrados rendem brincadeiras deliciosas. Monte uma "caixa de surpresas" com objetos de texturas variadas, como esponja, pinha, tecido, colher e bolinha, e peça que a criança adivinhe cada um só pelo toque. Faça um jogo de identificar cheiros com potinhos contendo café, canela, casca de laranja ou sabonete, sempre com itens seguros. Na cozinha, provar alimentos de olhos fechados e adivinhar sabores vira diversão e aprendizado ao mesmo tempo.
Massinha caseira, argila e areia cinética são ótimas para desenvolver o tato e a coordenação. Modelar formas, apertar e enrolar ajudam a criança a construir imagens mentais dos objetos que conhece. Essas atividades também acalmam e favorecem a concentração, valendo tanto para crianças com deficiência visual quanto para as que enxergam.
Incluir todas as crianças na mesma brincadeira
A brincadeira mais valiosa é aquela em que ninguém fica de fora. Ao reunir crianças que enxergam e crianças com deficiência visual, prefira jogos que dependam de som e cooperação, e combine regras que todos possam seguir. Em vez de disputar quem vê primeiro, proponha objetivos em que a turma alcança algo junta. Peça aos colegas que se anunciem pelo nome ao falar, para que a criança saiba quem está por perto.
Evite corrigir ou fazer por ela o que ela consegue fazer sozinha. Ofereça a informação necessária, descreva o cenário e depois deixe a criança tentar. Errar e recomeçar faz parte de brincar. Quando as próprias crianças percebem que a diversão cabe para todos, a inclusão deixa de ser um esforço e vira algo simples e natural.
Quando buscar orientação profissional
Estas ideias são um convite para brincar e não substituem acompanhamento especializado. Se você tem dúvidas sobre o desenvolvimento, a estimulação ou os recursos mais indicados para a sua criança, procure profissionais como oftalmologista, pediatra e especialistas em estimulação visual e orientação e mobilidade. Serviços de atendimento educacional especializado e instituições de apoio à pessoa com deficiência visual também orientam famílias e emprestam materiais. Cada criança tem seu tempo, e o apoio certo faz toda a diferença.
Fontes
- Ministério da Saúde, saúde ocular e atenção à pessoa com deficiência. Disponível em www.gov.br/saude.
- Ministério da Educação, atendimento educacional especializado e educação inclusiva. Disponível em www.gov.br/mec.
- Sociedade Brasileira de Pediatria, desenvolvimento infantil e estimulação. Disponível em www.sbp.com.br.
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